Presente em praticamente todas as farmácias do país e em boa parte dos armários domésticos, o ibuprofeno é um dos analgésicos mais consumidos no Brasil. Indicado para o alívio da dor, da febre e de processos inflamatórios, ele pode ser vendido sem prescrição médica em determinadas concentrações, o que ajuda a explicar sua popularidade.
A familiaridade com o medicamento, no entanto, costuma mascarar um dado relevante: trata-se de uma substância com contraindicações bem definidas e com potencial para causar eventos adversos gástricos, renais e cardiovasculares, sobretudo quando usada por conta própria e por períodos prolongados. Entender para que serve, como tomar e em quais situações o produto não deve ser utilizado é o primeiro passo para um uso mais seguro.
O que é o ibuprofeno?
O ibuprofeno é um anti-inflamatório não esteroide (AINE), classe que reúne também o ácido acetilsalicílico, o diclofenaco, o naproxeno e a nimesulida, entre outros medicamentos. O termo “não esteroide” indica que a substância combate a inflamação sem pertencer ao grupo dos corticoides.
Seu funcionamento no organismo pode ser explicado de forma simples. Quando há uma lesão, uma infecção ou um processo inflamatório, o corpo produz substâncias chamadas prostaglandinas, responsáveis por desencadear dor, inchaço e febre. O ibuprofeno age bloqueando as enzimas cicloxigenases (conhecidas como COX-1 e COX-2), que participam da fabricação dessas prostaglandinas. Com menos prostaglandinas circulando, os sintomas diminuem.
Esse mecanismo garante ao medicamento três efeitos combinados: analgésico (alívio da dor), anti-inflamatório (redução do inchaço e da vermelhidão) e antitérmico (queda da febre). É justamente essa versatilidade que o torna tão requisitado.
No mercado brasileiro, o ibuprofeno é encontrado em comprimidos revestidos de 200 mg, 300 mg, 400 mg e 600 mg, em cápsulas gelatinosas moles, em suspensão oral e em gotas, nas concentrações de 50 mg/mL e 100 mg/mL, estas últimas voltadas principalmente ao público infantil.¹
Ibuprofeno: para que serve?
O medicamento é indicado para o tratamento de sintomas, ou seja, alivia manifestações desconfortáveis sem necessariamente corrigir a causa que as originou. Entre as principais indicações previstas em bula, estão:
- Febre, inclusive em quadros gripais e resfriados;
- Dores de cabeça de intensidade leve a moderada e crises de enxaqueca;
- Dores musculares, contusões, entorses, distensões e lesões por esforço repetitivo;
- Cólica menstrual, conhecida tecnicamente como dismenorreia primária;
- Dor de dente e dor após procedimentos odontológicos;
- Dor no pós-operatório de cirurgias de pequeno e médio porte;
- Sinais e sintomas de osteoartrite e de artrite reumatoide;
- Dor lombar e outros quadros inflamatórios que afetam músculos, tendões e articulações.
No caso das dores musculares, o ibuprofeno costuma ser procurado após atividade física intensa, esforços no trabalho ou pequenos traumas. O alívio tende a ser rápido, mas a persistência do incômodo por vários dias, a presença de inchaço importante ou a limitação de movimento indicam a necessidade de avaliação médica, já que podem sinalizar lesões mais sérias.
Situação semelhante vale para as dores de cabeça. O uso ocasional é aceitável, porém episódios frequentes, intensos ou acompanhados de outros sintomas, como alterações visuais, vômitos e rigidez na nuca, exigem investigação. Há ainda um risco pouco conhecido: o consumo excessivo e recorrente de analgésicos pode provocar a chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos, quadro em que o próprio remédio passa a perpetuar a dor.
Como tomar ibuprofeno?
O ibuprofeno é administrado por via oral e deve, preferencialmente, ser tomado durante ou logo após as refeições, acompanhado de um copo de água. A presença de alimento no estômago não elimina o risco de irritação gástrica, mas ajuda a reduzi-lo. Comprimidos revestidos não devem ser partidos nem triturados, salvo orientação profissional em contrário.
As faixas de dose variam conforme a apresentação e a finalidade. Em adultos, as bulas aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) preveem, de modo geral, intervalos mínimos de seis a oito horas entre as tomadas, com limites diários que mudam de acordo com a concentração do produto e com o tipo de venda, isenta ou sob prescrição.¹ Nas apresentações pediátricas, o cálculo é feito com base no peso da criança, e não na idade isoladamente, o que torna indispensável a orientação de um profissional.
Em vez de memorizar números, o consumidor deve observar um princípio que orienta o uso de toda essa classe de medicamentos: utilizar a menor dose eficaz pelo menor tempo possível. Dobrar a dose por conta própria porque “a dor não passou” é uma conduta de risco, pois aumenta a probabilidade de eventos adversos sem garantia de benefício adicional.
Também existem limites de tempo para a automedicação. Como regra prática, febre que persiste por mais de três dias e dor que não cede após cinco a sete dias de uso devem ser avaliadas por um médico. O desaparecimento temporário do sintoma pode, inclusive, retardar o diagnóstico de um problema mais grave.
Efeitos colaterais do ibuprofeno
Como todo medicamento, o ibuprofeno pode provocar reações indesejadas. A maior parte delas é leve e transitória, mas algumas merecem atenção imediata.
Trato digestivo. São os efeitos colaterais mais frequentes. Incluem dor de estômago, azia, queimação, náusea, má digestão, diarreia e gases. Em uso prolongado, em doses elevadas ou em pessoas predispostas, o medicamento pode causar erosões na mucosa, úlceras, sangramento e, em casos raros, perfuração gastrintestinal. Um ponto importante é que essas complicações podem ocorrer sem qualquer sintoma de alerta prévio, especialmente em idosos.¹ ²
Rins. O ibuprofeno pode provocar retenção de líquidos, inchaço nas pernas e nos tornozelos e elevação da pressão arterial. Em pacientes com função renal já comprometida, desidratados ou que usam diuréticos, há risco de insuficiência renal aguda.
Sistema nervoso. Tontura, sonolência, zumbido e, paradoxalmente, dor de cabeça estão entre as queixas relatadas.
Reações alérgicas. Urticária, coceira, inchaço nos lábios e no rosto e falta de ar configuram emergência médica. Reações cutâneas graves são raras, porém descritas.
A interrupção imediata do uso e a procura por atendimento são recomendadas diante de fezes escuras e com odor forte, vômito com sangue ou com aspecto de borra de café, dor abdominal intensa, falta de ar, inchaço súbito ou qualquer sinal de reação alérgica.
Quando o ibuprofeno é contraindicado?
Há situações em que o medicamento não deve ser utilizado. O ibuprofeno é contraindicado para pessoas com:
- Alergia ou hipersensibilidade conhecida ao ibuprofeno, ao ácido acetilsalicílico ou a outros anti-inflamatórios não esteroides;
- Histórico de asma, urticária, rinite ou broncoespasmo desencadeados por AINEs;
- Úlcera péptica em atividade, sangramento ou perfuração no sistema digestivo;
- Doença inflamatória intestinal em fase ativa;
- Insuficiência hepática grave;
- Insuficiência renal grave;
- Insuficiência cardíaca grave;
- Gravidez, especialmente no terceiro trimestre, pelo risco de fechamento precoce do ducto arterial do feto e de comprometimento da função renal fetal;¹
- Pós-operatório de cirurgia de revascularização do miocárdio, a chamada ponte de safena.
Outros grupos não têm o uso proibido, mas exigem cautela redobrada e avaliação profissional antes de iniciar o tratamento. É o caso de idosos, hipertensos, diabéticos, pessoas com doença renal crônica, pacientes que usam anticoagulantes e aqueles com histórico anterior de úlcera ou sangramento digestivo.
Ibuprofeno e coração: o que dizem as evidências
A relação entre anti-inflamatórios não esteroides e risco cardiovascular é tema consolidado na literatura médica e motivou alertas de agências reguladoras em diferentes países. Estudos e revisões indicam que o uso contínuo de AINEs, em doses altas e por períodos prolongados, está associado a aumento do risco de eventos trombóticos, como infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral.² ³
Há ainda um efeito mais direto sobre quem já convive com doença cardíaca. Por favorecer a retenção de sódio e de água, o ibuprofeno pode elevar a pressão arterial, reduzir a eficácia de medicamentos anti-hipertensivos e descompensar quadros de insuficiência cardíaca, provocando piora do inchaço e da falta de ar.
É importante dimensionar corretamente essa informação. O perfil de risco do uso pontual, em dose baixa e por poucos dias, em um adulto saudável, é bastante diferente do perfil associado ao consumo crônico por quem já apresenta fatores de risco cardiovascular. O alerta não significa que o medicamento deva ser abandonado, e sim que seu uso prolongado precisa ser acompanhado por um profissional de saúde.
Interações: atenção especial ao ácido acetilsalicílico
Entre as interações medicamentosas do ibuprofeno, uma das mais relevantes e menos conhecidas pelo público envolve o ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose, utilizado de forma contínua por milhões de pessoas para prevenção de infarto e de AVC.
O AAS protege o sistema cardiovascular ao se ligar de maneira irreversível a uma enzima presente nas plaquetas, dificultando a formação de coágulos. O ibuprofeno atua no mesmo local, porém de forma temporária. Quando os dois são tomados em sequência inadequada, o ibuprofeno pode ocupar esse sítio e impedir que o AAS exerça plenamente seu efeito protetor.¹ ³ Por isso, pessoas que usam AAS de forma contínua devem consultar o médico ou o farmacêutico sobre o espaçamento correto entre as doses antes de recorrer ao ibuprofeno.
Outras combinações exigem atenção:
- Anticoagulantes e antiagregantes: maior risco de sangramento;
- Corticoides: aumento do risco de úlcera e hemorragia digestiva;
- Anti-hipertensivos e diuréticos: redução da eficácia e risco renal;
- Lítio e metotrexato: elevação dos níveis dessas substâncias no sangue;
- Antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina: maior risco de sangramento gástrico.
O uso simultâneo com outros anti-inflamatórios não esteroides deve ser evitado. Associar ibuprofeno a nimesulida, diclofenaco ou naproxeno, por exemplo, soma os riscos sem oferecer ganho terapêutico proporcional. A combinação com bebidas alcoólicas também é desaconselhada, por potencializar a agressão à mucosa do estômago.
Ibuprofeno ou paracetamol?
A dúvida é frequente no balcão das farmácias. O paracetamol tem ação analgésica e antitérmica, mas praticamente não apresenta efeito anti-inflamatório. O ibuprofeno reúne as três ações, o que o torna mais indicado quando existe inflamação envolvida, como em entorses, cólicas menstruais e dores articulares.
Os perfis de segurança também diferem. O ibuprofeno concentra riscos no estômago, nos rins e no sistema cardiovascular. O paracetamol é mais bem tolerado nesses aspectos, porém exige atenção rigorosa à dose máxima diária em razão do potencial de toxicidade para o fígado, sobretudo em pessoas que consomem álcool com regularidade. A escolha entre um e outro deve considerar o tipo de dor e o histórico de saúde de cada pessoa.
O que informar ao farmacêutico antes de comprar
O farmacêutico é o profissional de saúde mais acessível da rede e pode orientar com segurança sobre o uso do ibuprofeno. Para que a orientação seja efetiva, convém informar espontaneamente no momento da compra:
- Todos os medicamentos de uso contínuo, com destaque para AAS, anti-hipertensivos, diuréticos e anticoagulantes;
- Doenças já diagnosticadas, especialmente gastrite, úlcera, hipertensão, diabetes e problemas renais ou cardíacos;
- Alergias prévias a medicamentos;
- Gestação, suspeita de gravidez ou amamentação;
- Há quantos dias o sintoma está presente.
Referências
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Anvisa). Bulário Eletrônico: bulas profissionais de ibuprofeno comprimido revestido, cápsula gelatinosa mole e suspensão oral.
- BHALA, N. et al. Vascular and upper gastrointestinal effects of non-steroidal anti-inflammatory drugs: meta-analyses of individual participant data from randomised trials. The Lancet.
- SCHMIDT, M. et al. Cardiovascular safety of non-aspirin non-steroidal anti-inflammatory drugs: review and position paper by the European Society of Cardiology. European Heart Journal.









