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Jejum intermitente pode levar à compulsão alimentar, diz estudo

O estudo envolveu mais de 458 estudantes da USP, dos quais 89 se declararam praticantes do jejum, enquanto 369 não seguiam esse método

André Silva Por André Silva
13 de janeiro, 2025
em Sem categoria
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Jejum intermitente pode levar à compulsão alimentar, diz estudo

Foto: Shutterstock

O jejum intermitente, uma prática que alterna momentos de alimentação com longos períodos sem comer (entre 16h e 24h, em geral), tem ganhado adeptos que desejam emagrecer. Contudo, um novo estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) alerta para os riscos dessa tendência: ela pode favorecer o desejo intenso por comida e o desenvolvimento de compulsão alimentar.

Os dados coletados corroboram com uma tese difundida há um tempo: “Dietas restritivas e jejuns são, frequentemente, o ponto de partida para transtornos alimentares”, resume o nutricionista Jônatas Oliveira, autor principal do estudo.

A pesquisa

O estudo envolveu mais de 458 estudantes da USP, dos quais 89 se declararam praticantes do jejum, enquanto 369 não seguiam esse método. A partir de um questionário online, os pesquisadores analisaram as rotinas alimentares dos participantes nos três meses anteriores à entrevista.

Os resultados revelaram uma relação direta entre o número de horas de jejum e sinais de compulsão alimentar, desejo intenso por comida e consumo de alimentos considerados “proibidos” por quem busca emagrecer (doces e itens gordurosos). Para resumir: quanto mais jejum, mais sintomas de compulsão alimentar.

Os dados apontam que a duração do jejum é, em média, 115% maior entre os comedores compulsivos e 140% mais longa entre aqueles com compulsão alimentar severa. O estudo também observou que, com o jejum, havia um aumento no desejo intenso por comida (que é chamado de food craving).

“Quando passamos tanto tempo focados em não comer e nos impomos limites rigorosos, criamos um estado constante de estresse. Isso pode levar a um ciclo vicioso de restrição e descontrole, intensificando os sintomas de compulsão alimentar”, explica Oliveira.

Embora o estudo não tenha realizado diagnóstico clínico, ele utilizou instrumentos sensíveis para medir o nível de compulsividade alimentar. Além disso, Oliveira destaca que não se pode afirmar que o jejum causa compulsão alimentar, mas há uma clara correlação entre as práticas.

Cabe destacar que o transtorno de compulsão alimentar é caracterizado por uma ingestão descontrolada de grande quantidade de comida. O indivíduo não precisa estar com fome.

Restrição e descontrole

Uma das principais conclusões do estudo é que o jejum intermitente pode ser contraproducente para quem busca emagrecimento. Ao se impor limites rígidos, a pessoa pode entrar em um ciclo de pensamento extremista (ou seja, “tudo ou nada”).

É que o controle excessivo sobre a alimentação pode causar um nível de estresse capaz de desregular o processo natural de comer, que deveria ser tão automático quanto respirar.

“Estar em jejum exige um grande esforço mental, especialmente em contextos sociais. Imagine passar o Natal sem comer enquanto todos ao redor estão celebrando. O cérebro fica mais vulnerável, e o controle é ainda mais difícil em momentos de estresse”, alerta o nutricionista.

É por isso que acontece o efeito rebote. A frustração por não atingir o emagrecimento desejado também pode piorar o quadro. “A pessoa pensa: já que não consigo emagrecer, vou comer mesmo”, exemplifica Oliveira. Significa dizer que a mentalidade de restrição dispara comportamentos impulsivos, que resultam na compulsão alimentar — caracterizada por uma sensação de perda de controle.

Mas o jejum tem benefícios?

No Brasil, onde jejuar não faz parte de uma tradição cultural ou religiosa ampla, o jejum é frequentemente associado apenas a objetivos de emagrecimento. Nesse contexto, segundo Jônatas, não dá para falar em benefícios.

“Nossa hipótese é de que o jejum, nessa perspectiva de dieta, é uma prática estressante. Ele pode até proporcionar um bem-estar inicial, mas acaba reforçando comportamentos alimentares desregulados. O jejum intermitente é um protocolo de estresse”, defende.

“No fim, muitas dessas pessoas buscam controle, mas atingem o descontrole. Para tratá-las, precisamos entender as reais motivações por trás do jejum”, conclui o nutricionista.

Segundo ele, se a intenção é emagrecer, o ideal é evitar restrições excessivas e estar atento aos limites do corpo, respeitando suas necessidades. “Para que não fiquemos tão focados na quantidade de comida ingerida, a ponto de nos desconectarmos da realidade”, diz.

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