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Home Doenças

Doença cardíaca é principal causa de morte de mulheres no país

O alerta ganha força com a comemoração do Dia Internacional da Mulher, quando a discussão sobre saúde integral precisa incluir, com urgência, o coração feminino

André Silva Por André Silva
11 de março, 2026
em Doenças
0
Doença cardíaca é principal causa de morte de mulheres no país

Foto: Shutterstock

No imaginário coletivo, o câncer ainda é visto como o maior vilão da saúde feminina. No entanto, são as doenças cardiovasculares que ocupam o primeiro lugar entre as causas de morte no Brasil, respondendo por cerca de 30% a 32% dos óbitos. Ainda assim, o risco cardíaco das mulheres continua subestimado tanto socialmente quanto, em alguns casos, clinicamente.

O alerta ganha força com a comemoração do Dia Internacional da Mulher, quando a discussão sobre saúde integral precisa incluir, com urgência, o coração feminino.

“O sistema cardiovascular da mulher é diferente do homem, e a ciência só recentemente começou a dar mais atenção a essas diferenças”, explica a Dra. Bianca Prezepiorski, médica cardiologista do Hospital Cardiológico Costantini.

“Os grandes estudos e diretrizes da cardiologia foram baseados majoritariamente em homens. Ainda não temos estudos tão robustos quanto deveríamos sobre as especificidades do coração feminino.”

Segundo a especialista, há diferenças anatômicas e hormonais relevantes. “Anatomicamente, o coração da mulher é menor do que o do homem, mesmo quando ambos têm o mesmo peso e altura. As artérias também são mais finas. Isso significa que o coração feminino pode se sobrecarregar mais ao longo da vida”, detalha.

Além disso, o endotélio — camada interna dos vasos sanguíneos — responde de maneira distinta aos hormônios femininos, apresentando características inflamatórias e imunológicas próprias. “São várias nuances que ainda estão sendo compreendidas”, acrescenta.

Sintomas menos clássicos, diagnóstico mais tardio

Um dos principais fatores que contribuem para o subdiagnóstico está na forma como o infarto se manifesta nas mulheres.

“Existe diferença, e isso é um dos grandes problemas”, afirma a cardiologista. “Nos homens, os sintomas costumam ser clássicos: dor intensa no peito, em aperto, que pode irradiar para o braço ou mandíbula, acompanhada de sensação iminente de morte. Esses sinais fazem com que o homem procure atendimento rapidamente.”

Já no público feminino, o quadro pode ser mais silencioso e inespecífico. Cansaço extremo, falta de ar, dor no estômago, náuseas, mal-estar generalizado e desconforto leve no peito estão entre os sintomas mais comuns.

“Muitas vezes a mulher interpreta como algo que comeu, nervosismo ou ansiedade. E infelizmente, em alguns casos, até o próprio atendimento médico pode demorar a valorizar esses sintomas como infarto”, alerta. “Essa diferença faz com que o diagnóstico seja mais tardio.”

Fatores femininos ainda fora das tabelas de risco

O subdiagnóstico não se explica por um único motivo. Para a especialista, trata-se de um conjunto de fatores históricos e estruturais.

“Durante décadas, os estudos clínicos incluíram mais homens do que mulheres. Isso criou uma percepção equivocada de que o infarto era mais masculino”, observa. “Hoje a ciência está começando a corrigir isso, mas ainda faltam ajustes importantes.”

Entre eles, a inclusão de fatores específicos da saúde feminina nas avaliações de risco cardiovascular. Histórico de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, parto prematuro, menopausa precoce, uso de anticoncepcionais e histórico hormonal são variáveis que impactam diretamente o coração da mulher, mas que nem sempre aparecem nas tabelas tradicionais.

“Esses fatores impactam o risco cardiovascular, mas nem sempre entram nos escores utilizados na prática clínica”, ressalta.

Estresse crônico e tripla jornada

A realidade social também pesa. A dupla ou tripla jornada, trabalho, filhos, cuidados com a casa e com familiares, tem impacto biológico mensurável.

“O estresse crônico é como viver com um ‘leão imaginário’ atrás de você o tempo todo. O organismo libera constantemente cortisol e adrenalina”, explica a médica. “Na prática, esse ‘leão’ pode ser trabalho, filhos, casa, cuidado com pais idosos e pressões emocionais.”

O impacto, segundo ela, pode ser ainda maior nas mulheres. “O endotélio feminino é mais sensível aos hormônios do estresse. Por isso, biologicamente, o impacto cardiovascular pode ser maior na mulher do que no homem sob o mesmo nível de estresse.”

Menopausa: ponto de virada no risco cardíaco

A menopausa marca uma mudança significativa no comportamento cardiovascular feminino. Até essa fase, o estrogênio exerce efeito protetor sobre o sistema cardiovascular. “A menopausa não é uma doença, mas representa uma mudança importante. Quando a mulher entra nessa fase, ela perde essa proteção hormonal”, afirma.

Após esse período, são comuns o aumento da pressão arterial, maior acúmulo de gordura abdominal, elevação do LDL (colesterol ruim), redução do HDL (colesterol bom) e maior sensibilidade ao estresse. “Por isso, o risco cardiovascular passa a se igualar ou até superar o dos homens. É fundamental que, nessa fase, a mulher faça acompanhamento cardiológico regular.”

Mudança de mentalidade e prevenção

Para enfrentar o cenário, é necessária uma mudança em múltiplos níveis. “Precisamos de mais pesquisas específicas em mulheres, maior atenção aos sintomas atípicos, valorização das queixas femininas nas emergências e conscientização da sociedade de que doença cardiovascular é a principal causa de morte feminina”, pontua.

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A cardiologista reforça que o cuidado preventivo não deve se limitar à saúde ginecológica. “Assim como o exame ginecológico preventivo faz parte da rotina, a avaliação cardiológica também deve fazer. A mulher precisa procurar cardiologista para prevenção, não apenas ginecologista.”

Portanto, o alerta é claro: reconhecer os sinais, compreender as diferenças e investir em prevenção são atitudes que salvam vidas.

“Prevenção salva vidas”, conclui a Dra. Bianca Prezepiorski.

Fonte: Guia da Farmácia
André Silva

André Silva

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