Com a queda das temperaturas e o aumento da circulação de vírus respiratórios, cresce também a procura por atendimento médico devido a sintomas como tosse, dor de garganta, febre e congestão nasal. Nesse período, especialistas da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) fazem um alerta: a maior parte das infecções respiratórias típicas do inverno é causada por vírus e, portanto, não deve ser tratada com antibióticos.
Apesar disso, muitas pessoas ainda recorrem à automedicação ou pressionam profissionais de saúde em busca desses medicamentos na expectativa de acelerar a recuperação. Além de não trazer benefícios contra doenças virais, o uso inadequado de antibióticos contribui para o avanço da resistência antimicrobiana, fenômeno que ameaça a eficácia de tratamentos essenciais para a medicina moderna.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a resistência antimicrobiana está entre as principais ameaças à saúde pública global. O problema ocorre quando bactérias desenvolvem mecanismos que as tornam resistentes aos medicamentos utilizados para combatê-las, dificultando ou até impossibilitando o tratamento de infecções.
Segundo Klinger Faíco, médico infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a população ainda associa equivocadamente os antibióticos ao tratamento de qualquer quadro infeccioso.
“É muito comum que pacientes procurem atendimento acreditando que um antibiótico irá acelerar a melhora de sintomas como tosse, coriza ou dor de garganta. No entanto, a maioria das infecções respiratórias observadas durante o inverno é causada por vírus, e os antibióticos não têm qualquer ação contra eles. Utilizar esses medicamentos sem necessidade não traz benefícios ao paciente e ainda aumenta um problema que afeta toda a sociedade: a resistência bacteriana”, explica.
Como surgem as bactérias resistentes
Quando um antibiótico é utilizado de forma inadequada, seja sem indicação médica, em doses incorretas ou por tempo insuficiente, ele exerce pressão seletiva sobre as bactérias. As mais sensíveis são eliminadas, enquanto aquelas que possuem mecanismos de resistência sobrevivem e podem se multiplicar.
Ao longo do tempo, esse processo favorece o surgimento das chamadas superbactérias, microrganismos capazes de resistir a diversos tipos de antibióticos disponíveis atualmente.
O impacto vai muito além das infecções respiratórias. A resistência antimicrobiana compromete o tratamento de doenças comuns e ameaça procedimentos médicos que dependem da prevenção e do controle de infecções, como cirurgias, transplantes, tratamentos oncológicos e cuidados intensivos.
“Muitas pessoas acreditam que a resistência acontece apenas com quem toma antibióticos frequentemente, mas não é assim. As bactérias resistentes circulam entre pessoas, hospitais e comunidades. Quando esses microrganismos se tornam predominantes, todos podem ser afetados, inclusive aqueles que utilizaram os medicamentos corretamente”, destaca o médico.
Os erros mais frequentes
Entre os comportamentos que favorecem o surgimento de bactérias resistentes, especialistas apontam:
- Utilizar antibióticos sem prescrição médica;
- Guardar sobras de tratamentos anteriores para uso futuro;
- Compartilhar medicamentos com familiares ou amigos;
- Interromper o tratamento antes do prazo recomendado;
- Não respeitar os horários e intervalos entre as doses;
- Utilizar antibióticos indicados para outra doença ou situação clínica.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) destaca que o uso racional desses medicamentos é fundamental para preservar sua eficácia e reduzir o avanço da resistência bacteriana.
O papel dos serviços de saúde
Além da conscientização da população, especialistas ressaltam a importância de estratégias institucionais para garantir o uso adequado dos antimicrobianos.
Uma das principais medidas é a implementação de programas de stewardship antimicrobiano, recomendados pela Anvisa e adotados por hospitais em diversos países. Esses programas promovem o uso racional dos antibióticos por meio da escolha adequada do medicamento, da dose correta, da duração apropriada do tratamento e da avaliação contínua dos resultados clínicos.
“Os antibióticos transformaram a história da medicina e salvaram milhões de vidas nas últimas décadas. Preservar sua eficácia é uma responsabilidade coletiva. Se continuarmos utilizando esses medicamentos de forma inadequada, corremos o risco de enfrentar um futuro em que infecções hoje consideradas simples se tornem novamente graves e difíceis de tratar”, alerta Klinger.
O que fazer diante de sintomas respiratórios
A SBI reforça que pessoas com sintomas respiratórios devem buscar avaliação médica quando houver sinais de agravamento ou fatores de risco associados. Na maioria dos casos virais, medidas como repouso, hidratação adequada e controle dos sintomas são suficientes para a recuperação.
A entidade também destaca a importância da vacinação contra influenza e Covid-19 como forma de prevenção das infecções respiratórias e de suas complicações.
O uso de antibióticos deve ocorrer exclusivamente sob orientação profissional e após avaliação clínica adequada.










