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Canetas emagrecedoras no pós-parto: busca aumenta, mas há risco para a amamentação?

Segundo estudo, é crescente o movimento de puérperas utilizando medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, que se popularizaram como as “canetas emagrecedoras”

André Silva Por André Silva
20 de fevereiro, 2026
em Saúde
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Canetas emagrecedoras no pós-parto: busca aumenta, mas há risco para a amamentação?

Foto: Reprodução

É normal que, após o parto, a mulher demore alguns meses ou até mais de um ano para eliminar o peso que ganhou durante a gestação. Mas a pressão para retomar o corpo de antes pode fazer com que muitas decidam recorrer a atalhos. Segundo estudo publicado em novembro de 2025 na revista JAMA, é crescente o movimento de puérperas utilizando medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, que se popularizaram como as “canetas emagrecedoras”, para acelerar esse processo.

A pesquisa foi desenvolvida por uma equipe de dinamarqueses e canadenses. Eles cruzaram os registros de nascimentos na Dinamarca de janeiro de 2018 a junho de 2024 com dados do sistema nacional de prescrições médicas para identificar as mães de recém-nascidos que preencheram ao menos uma receita de semaglutida ou liraglutida (dois princípios ativos desses fármacos) entre o dia do parto e os primeiros 182 dias do puerpério.

Mudança expressiva

Os resultados indicam uma mudança rápida e expressiva no padrão de uso desses remédios ao longo do tempo. Em 2018, os registros eram inferiores a cinco usuárias a cada 10 mil partos. Seis anos depois, essa mesma taxa saltou para 173 pessoas por 10 mil nascimentos. Ao todo, entre as mais de 382 mil gestações analisadas, 1.549 mulheres recorreram às canetas no pós-parto.

Houve uma virada em dezembro de 2022, quando a Dinamarca liberou a semaglutida — princípio ativo de medicamentos vendidos sob os nomes comerciais Ozempic e Wegovy — para tratar casos de obesidade. Antes disso, eles eram indicados apenas para o tratamento de diabetes mellitus tipo 2.

“Desde 2023, o uso de agonistas do GLP-1 aumentou drasticamente”, destaca Mette Bliddal, pesquisadora da Universidade do Sul da Dinamarca e autora do estudo, em entrevista por e-mail à Agência Einstein. “Observamos que a maioria das mulheres que buscaram o produto em 2023 e 2024 estavam acima do peso antes da gravidez e não tinham histórico de diabetes.”

Pressão estética

Esse fenômeno não é limitado ao país europeu. Médicos brasileiros também já observam uma maior procura por esses medicamentos. “Desde a popularização das medicações agonistas do GLP-1, percebo um aumento da procura por mulheres no pós-parto”, afirma o endocrinologista Carlos André Minanni, do Einstein Hospital Israelita. “A busca se dá tanto por pessoas que já apresentavam sobrepeso ou obesidade antes da gestação quanto por puérperas com um Índice de Massa Corporal (IMC) não tão elevado.”

Segundo Minanni, os motivos alegados pelas pacientes variam, mas os principais são desconforto com o corpo, medo de não recuperar o peso original, falta de autoestima e histórico de efeito sanfona — nome dado à dificuldade para manter o emagrecimento que leva a um novo ganho de peso. Boa parte dessas questões passa pela pressão estética, que impõe a magreza como padrão de corpo ideal.

Como consequência, muitas recorrem a dietas extremas, procedimentos invasivos e uso indevido de medicamentos. “O pós-parto é um período de grande vulnerabilidade física e emocional. A medicalização rápida do peso pode mascarar ansiedade, depressão pós-parto ou padrões de compulsão e restrição”, alerta o endocrinologista.

Riscos do tratamento desacompanhado

Ainda se sabe pouco sobre como os medicamentos GLP-1 interagem com as mudanças hormonais e fisiológicas do puerpério. “Pequenos estudos sugerem que a semaglutida não passa para o leite materno em quantidades mensuráveis, e não foram relatados danos claros nos bebês amamentados”, relata Bliddal. “No entanto, isso não significa que os medicamentos sejam comprovadamente seguros durante a amamentação.”

Os efeitos colaterais conhecidos dessas medicações incluem náusea, vômito, diarreia, constipação, piora de fadiga e dificuldade de manter nutrição adequada. Em casos mais raros, a pessoa pode desenvolver quadros de colecistite (formação de pedras no interior da vesícula biliar) ou pancreatite (inflamação súbita do pâncreas).

Efeitos na produção de leite

Além disso, como não foi completamente descartada a hipótese de essas substâncias afetarem a produção de leite materno ou sua composição nutricional, esse risco precisa ser considerado. “Em um cenário de pós-parto sem amamentação ou depois que ocorre o desmame, a discussão pode existir quando há obesidade ou sobrepeso com comorbidades”, ressalta o médico do Einstein. Mesmo assim, a decisão deve ser individualizada, considerando gravidade da obesidade, comorbidades, histórico de transtorno alimentar, saúde mental, suporte para mudanças de estilo de vida e planejamento reprodutivo.

Mais importante do que só negar o tratamento com agonistas do GLP-1 às mulheres no puerpério, é preciso acolhê-las. “É fundamental validar as queixas sem endossar pressa, reconhecendo o incômodo sentido por elas, mas lembrando de enquadrar o pós-parto como fase de adaptação temporária”, pontua Carlos Minanni. “Esses medicamentos não podem ser vistos como atalhos cosméticos. O tratamento, se realmente necessário, deve ser feito no momento certo e com o devido acompanhamento médico.”

 

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