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Home Saúde

6 em 10 mulheres no Brasil já deixaram de trabalhar por sintomas menstruais

A pesquisa, apresentada pela Essity, companhia global de higiene e saúde, foi realizada pela Dalia, em colaboração com o Great Place to Work (GPTW) Brasil

André Silva Por André Silva
21 de maio, 2026
em Saúde
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6 em 10 mulheres no Brasil já deixaram de trabalhar por sintomas menstruais

Foto: Shuttertstock

Embora a menstruação faça parte da rotina das mulheres, o tema ainda é cercado por tabus, principalmente no ambiente corporativo.

Um novo estudo, intitulado “Menstruação e produtividade laboral: o tabu que impacta os resultados do negócio”, revela como sintomas menstruais influenciam o desempenho profissional, afetam a produtividade das empresas e expõem desafios que ainda persistem nas organizações brasileiras quando o assunto é saúde menstrual.

A pesquisa, apresentada pela Essity, companhia global de higiene e saúde, foi realizada pela Dalia, em colaboração com o Great Place to Work (GPTW) Brasil.

Após conduzir estudos sobre o tema no México, a Essity decidiu investigar a realidade sobre menstruação no mercado brasileiro. Assim, a Dalia realizou o levantamento que ouviu 1.688 pessoas que menstruam entre maio e setembro de 2025, além de 80 empresas de diferentes setores e portes.

O Guia da Farmácia acompanhou a divulgação dos dados durante evento realizado no escritório da Essity, em São Paulo (SP), no dia 19 de maio, seguido de um debate sobre os impactos da saúde menstrual no ambiente corporativo.

Menstruação afeta produtividade

Segundo a pesquisa, 96,7% das pessoas que menstruam afirmam perceber algum grau de queda no desempenho profissional durante o período menstrual, especialmente em razão de sintomas como cólicas, fadiga, dores de cabeça e alterações emocionais.

Além disso, 59,2% das mulheres afirmam já ter precisado interromper o trabalho devido aos desconfortos relacionados à menstruação.

O estudo mostra, ainda, que 9 em cada 10 entrevistadas relatam sintomas intensos, como mudanças de humor, cólicas, cansaço, dor de cabeça ou desconforto na região lombar, que impactam diretamente sua rotina no trabalho.

Reflexos no desenvolvimento profissional

A análise considera tanto o absenteísmo – as faltas ao trabalho –, quanto o presenteísmo, quando profissionais permanecem em atividade, mas com rendimento inferior ao habitual.

Segundo a diretora do projeto da pesquisa na Dalia, Laura Manzo, muitas mulheres não informam o verdadeiro motivo de sua ausência no trabalho por temerem consequências. Em um ambiente organizacional sem abertura, elas têm medo de não serem levadas a sério.

O estudo revela que 1 em cada 4 relatam consequências trabalhistas relacionadas à menstruação, como deduções salariais, discriminação, assédio, falta de promoções e até demissões.

Menstruação: tema desconhecido

A pesquisa aponta que a maioria das empresas brasileiras ainda não reconhece o tema como uma questão relacionada à saúde, ao bem-estar, à produtividade e aos direitos das pessoas que menstruam.

Segundo os dados:

  • apenas 8% das companhias possuem políticas ou protocolos voltados às questões menstruais;
  • 75% das empresas afirmam nunca ter considerado o tema internamente;
  • 18% entendem que medidas relacionadas à saúde menstrual não são necessárias.

Resultados positivos

Por outro lado, organizações com políticas ou práticas voltadas ao bem-estar menstrual apresentam menor impacto na produtividade das colaboradoras.

Em uma escala de 0 a 100, a perda de produtividade percebida em empresas sem iniciativas relacionadas ao tema foi de 64 pontos, enquanto nas organizações que adotam medidas de apoio o índice caiu para 59 pontos, o que representa uma melhora relativa de 8%.

Alternativas para o bem-estar menstrual

A pesquisa também aponta caminhos considerados prioritários pelas próprias trabalhadoras para melhorar a experiência menstrual no ambiente corporativo. Entre as medidas mais mencionadas estão:

  • flexibilidade na jornada nos dias de menstruação,
  • acesso a produtos menstruais e analgésicos,
  • licenças,
  • treinamentos
  • ajustes na carga de trabalho.

Entre as empresas que já implementaram algum tipo de política relacionada ao tema, as iniciativas variam entre: permissões informais; flexibilização de horários; apoio ao trabalho remoto/home office; dias de descanso; e licenças menstruais específicas.

Todas as companhias que adotaram medidas voltadas à saúde menstrual afirmam ter observado impactos positivos para o negócio, incluindo melhorias no clima organizacional, no bem-estar das colaboradoras, na produtividade e na retenção de talentos.

De acordo com o estudo, embora essas iniciativas não demandem investimentos elevados, elas podem contribuir para a redução de ausências, melhoria da produtividade, aumento da satisfação profissional e fortalecimento das políticas de diversidade e inclusão.

Menstruação na agenda corporativa

De acordo com Laura Manzo, da Dalia, as mulheres querem ser mais acolhidas e compreendidas, receber um tratamento com mais empatia, ter acesso à informação – já que muitas ainda desconhecem as políticas públicas existentes – e contar com insumos básicos de saúde menstrual.

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Para ela, a menstruação continua a ser tratada como algo privado, mas é preciso mudar essa realidade porque o tema afeta a economia do país e o desempenho das empresas.

“A menstruação segue fora de muitas conversas sobre produtividade e bem-estar no trabalho, apesar de impactar de forma direta a experiência cotidiana de milhões de mulheres e pessoas que menstruam. O que este estudo mostra é que ignorar o tema não elimina seus efeitos: apenas os transfere para o bem-estar, a produtividade e a permanência no mercado de trabalho. Em um país onde as mulheres representam uma parte fundamental da força de trabalho, avançar em políticas e práticas mais empáticas e informadas já não é apenas uma conversa sobre saúde, mas também uma discussão sobre cultura organizacional e sustentabilidade dos negócios”, afirma Laura.

Para a Diretora de Comunicação e Assuntos Públicos da Essity América Latina, Palmira Camargo, o debate sobre saúde menstrual precisa avançar dentro e fora do ambiente corporativo e ganhar espaço nas discussões sobre trabalho, inclusão e qualidade de vida.

“A saúde menstrual não é apenas um tema feminino, mas uma questão que envolve aspectos econômicos, de igualdade, de bem-estar e de saúde pública. A produtividade laboral e a estabilidade emocional de milhões de pessoas, e o impacto na vida diária estão diretamente relacionados a esse tema e, por isso, envolve toda a sociedade”, afirma a executiva.

Recomendações para as empresas

Para Vanessa Reis, diretora executiva do Great Place to Work Brasil, ampliar o olhar das empresas para a saúde menstrual é fundamental para avançar em bem-estar e equidade de gênero.

“Políticas mais inclusivas e humanizadas são essenciais para reduzir desigualdades e promover ambientes de trabalho mais saudáveis. Organizações que constroem relações de confiança e respeito criam espaços mais acolhedores e seguros, impactando diretamente a saúde menstrual e a experiência das pessoas no trabalho. É papel das empresas assumir essa agenda com consistência e empatia”, destaca.

No evento, Vanessa apontou algumas recomendações para as empresas promoverem o bem-estar menstrual:

  • Promover o letramento sobre saúde menstrual e questões de equidade de gênero;
  • Entender que saúde menstrual não é benefício, mas envolve dignidade de trabalho;
  • Integrar o tema à cultura da empresa, relacionando à Diversidade e Inclusão.

Práticas adotadas pela Essity

Segundo Palmira, da Essity, o estudo reforça a necessidade de as organizações ampliarem o olhar para políticas mais inclusivas e conectadas às necessidades reais das pessoas que menstruam.

“No ano passado, realizamos esse estudo no México e, agora, quisemos compreender também a realidade brasileira, um mercado estratégico para a Essity na América Latina com a marca Libresse. Queremos abrir a conversa no Brasil sobre como a menstruação impacta o ambiente de trabalho e incentivar práticas mais responsáveis relacionadas ao tema dentro das organizações. Na Essity, já adotamos iniciativas como disponibilização de produtos menstruais nos banheiros, acesso a espaços adequados de descanso, ambientes limpos e flexibilidade na jornada quando necessário”, destaca.

No evento, a Diretora de RH da Essity no Brasil, Cristina Ferreira, contou que a companhia implementou, em 2022, uma política de igualdade de gênero, que tem a saúde menstrual como um de seus pilares.

A iniciativa abriu espaço para que as colaboradoras falassem mais abertamente sobre o assunto. Para isso, a empresa capacitou lideranças para compreenderem os sintomas e oferecerem flexibilidade, como home office ou pausas durante o expediente em casos de cólica e mal-estar, por exemplo.

“Hoje, as mulheres têm liberdade para conversar sobre esse tema com seus gestores, sejam homens ou mulheres”, afirmou Cristina.

A companhia também promove palestras educativas para os todos funcionários e, mais recentemente, criou uma sala de acolhimento no escritório de São Paulo, equipada com cadeira de massagem, cobertor, absorventes e adesivos para cólica.

Políticas públicas no Brasil

Durante o evento, a internacionalista especializada em questões de gênero e direitos humanos, ativista e fundadora da Digna Brasil, Larissa Agostini, mostrou um panorama das políticas públicas relacionadas à saúde menstrual no Brasil, destacando avanços, desafios e entraves para a implementação dessas iniciativas, muitas vezes marcadas pela complexidade e lentidão nos processos.

Segundo ela, a pauta de saúde menstrual começou a ser discutida no país por volta de 2014. Em 2019, foi apresentado o primeiro projeto de lei sobre o tema (PL 4968/19), que deu origem à lei Nº 14.214/2021, criando o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, que estabelece, por exemplo, a distribuição gratuita de absorventes. Mas a lei acabou sendo vetada pela Presidência da República à época, em 2021. Já em 2023, o atual governo federal sancionou a lei.

“Hoje temos uma lei federal muito boa e ampla, que prevê não só a distribuição de produtos, mas educação menstrual, acesso à saúde e a diagnóstico. A gente avançou muito no Brasil nas últimas décadas com relação a isso, trazendo a saúde menstrual como pilar de saúde e dignidade humana”, disse Larissa.

Ela também destacou outro projeto de lei (Nº 1249/22), aprovado pela Câmara dos Deputados em 2025, e que atualmente tramita no Senado. O texto prevê licença de até 2 dias consecutivos por mês para mulheres que sofrem com sintomas graves associados ao fluxo menstrual.

“Precisamos começar a olhar a saúde menstrual com uma lógica de saúde pública, e não só uma agenda íntima, restrita à individualidade, porque isso afeta uma série de questões, como saúde, saneamento básico, qualidade laboral”, destacou Larissa.

Fonte: Guia da Farmácia
André Silva

André Silva

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