Nos dias 21, 22 e 23 de maio de 2026 foi realizada, em São Paulo, a 5ª edição do Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal, promovido pelo instituto Sechat, e que possui o reconhecimento como um dos mais importantes eventos sobre o tema. Com uma programação científica segmentada por áreas (Medicina, Veterinária, Química & Farmácia, Agronomia e Negócios) em salas distintas, foram dezenas de palestras, com profissionais que atuam na prática e/ou na pesquisa nas áreas do cuidado em saúde, tecnologia e inovação em saúde e gestão da saúde. No ano passado estive presente como palestrante do módulo MedCan (voltado especialmente para temas da área médica) e, neste ano, como congressista do mesmo módulo, o que permite acompanhar melhor a programação científica.
É interessante observar a quantidade crescente de estudos publicados sobre cânabis (sim, podemos escrever cânabis, como nome popular em português), com grupos de pesquisa distintos, inclusive de renomadas instituições, como UFSC, UFRJ, Fiocruz, Faculdade de Medicina do ABC e Faculdade Sírio-Libanês. Boa parte destas instituições possui parcerias com a indústria farmacêutica nacional, que, a partir do que dispõe o artigo 11 da RDC nº 1015/2026, tem até fevereiro de 2031 para concluir os ensaios clínicos e buscar migrar os produtos de Cannabis para medicamentos à base de Cannabis (sejam fitoterápicos ou específicos), claro, após análise da documentação necessária para aprovação da Anvisa.
Além da programação científica, o evento também contou com uma feira com expositores majoritariamente relacionados aos produtos de importação direta (conforme RDC 660/2022), empresas de regularização sanitária, farmácias de manipulação (operando ainda conforme decisão judicial), conselhos de classe e do mercado de cultivo.
Em linhas gerais, as palestras apresentadas no MedCan desenharam um cenário não muito diferente do de poucos anos atrás: praticamente a manutenção do status quo quanto aos resultados das pesquisas clínicas. A partir disso, podemos organizar a produção científica sobre Cannabis sativa, no que diz respeito aos benefícios na prevenção e no manejo de doenças, em três grupos:
• Evidências robustas
• Evidências promissoras
• Evidências inconclusivas
As evidências robustas reúnem indicações já bem conhecidas, algumas das quais permitiram o registro como medicamento em alguns países: o controle dos sintomas da esclerose múltipla, o controle de crises convulsivas refratárias, o manejo de náuseas e a prevenção de vômitos e, mais recentemente, a dor lombar crônica. Na Alemanha (e também na Áustria), foi recentemente aprovado o Exilby® (cujo insumo chama-se VER-01®), um extrato completo e padronizado de Cannabis sativa para dor lombar crônica com componente neuropático, decisão respaldada por ensaio clínico de fase 3 que demonstrou redução da dor, melhora do sono e da função física, sem sinais de dependência. A hipertonia espástica pós-AVC/trauma, neuropatias e a sundown syndrome em estados demenciais também compõem a lista de usos bem estabelecidos na literatura, ainda que sem medicamentos aprovados por agências regulatórias.
No campo das evidências promissoras, podemos elencar um conjunto de indicações com sinal clínico consistente, porém ainda amarradas por limitações metodológicas. A mais bem posicionada é o uso do CBN para a manutenção do sono, sustentado por ensaios de fase 3 bem desenhados, embora ainda dependentes de desfechos subjetivos. O estudo CUPID deve trazer, pela primeira vez, medidas objetivas por polissonografia. Somam-se a ela o CBD no manejo de sintomas comportamentais e comorbidades do transtorno do espectro autista (com melhoras clínicas relevantes, mas desfechos primários frequentemente negativos e alto risco de viés); os canabinoides no controle dos sintomas comportamentais e psicológicos das demências, como alternativa aos antipsicóticos e seus conhecidos riscos no idoso; o espectro completo rico em CBD para ansiedade, insônia e TEPT; e a saúde sexual feminina, em que se observa melhora subjetiva consistente de desejo, satisfação e orgasmo, ainda que sobre uma base majoritariamente observacional.
Mas, quando tratamos das evidências inconclusivas, precisamos de uma dose adicional de cautela. É esperado que um evento científico abrigue diferentes visões pragmáticas e epistemológicas sobre um mesmo tema, algo razoável e até necessário para colocar as ideias para conversarem (às vezes, brigarem). Como farmacêuticos e com a responsabilidade ética de promover o uso racional de medicamentos, cabe-nos tecer críticas firmes a algumas condutas e fundamentações apresentadas. No campo da saúde metabólica, por exemplo, parece-me bastante precoce recomendar canabinoides isolados, em especial o THCV, para o controle de peso em pessoas com obesidade: até o momento, só há ensaios pré-clínicos publicados para esse desfecho. Ainda assim, uma das palestras recomendou o uso com base na experiência clínica e nesses estudos incipientes, contradizendo, ainda bem, outras falas que reconheceram a limitação e o “cedo demais para usar”.
É tranquilo afirmar, aliás, que ainda predominam ensaios pré-clínicos com os canabinoides menores (CBG, CBC, CBDV e o já citado THCV), o que os mantém na prateleira do “sob investigação”. A exceção que vem deixando essa prateleira é justamente o CBN, hoje deslocado para o grupo das evidências promissoras graças aos ensaios de fase 3 sobre o sono. No conjunto, porém, a maior parte da pesquisa segue concentrada nos canabinoides maiores (THC e CBD), com uma série de perguntas ainda em aberto, isolados, associados ou dentro do fitocomplexo, o que reforça que boa parte do entusiasmo ainda corre à frente da evidência.
É interessante também observar que muitos dos profissionais que proferiram palestras veem com bons olhos o aumento do acesso à terapia canábica por farmácias de manipulação, ainda que apenas o CBD isolado, conforme prevê o artigo 72 da RDC nº 1015/2026, cuja regulamentação deverá ocorrer em breve. Uma palestra em especial deu destaque a isso, fazendo recomendações sobre o processo farmacotécnico, visando otimizar os efeitos clínicos.
A despeito desses confrontos na análise da produção científica, todas são uníssonas ao afirmar que:
- “Start low, go slow”. Ou seja, iniciar sempre nas doses mais baixas possíveis e aumentar gradativamente, conforme resposta e tolerabilidade.
- Níveis de THC e CBD importam, mas o contexto da formulação também (se participantes de um fitocomplexo ou isolados), pois isso pode gerar respostas terapêuticas distintas.
- No campo da farmacologia do sistema endocanabinoide, é interessante e importante a descoberta de novos alvos para fitocanabinoides, assim como a modulação do sistema endocanabinoide por outros compostos bioativos.
- No campo da tecnologia farmacêutica, deverá haver a ampliação de pesquisas sobre métodos que alteram a liberação/permeação de fitocanabinoides, com vistas a otimizar os efeitos terapêuticos.
Tudo isso são oportunidades de atuação para farmacêuticos. Os espaços são dos mais diversos, como grupos de pesquisa direcionados à pesquisa canábica, que vêm aumentando de tamanho no Brasil; empresas e organizações sem fins lucrativos (como as associações de pacientes), que têm como foco a produção desses produtos, se movimentam no intuito de atender ao novo marco regulatório; instituições de ensino se apresentam para contribuir com a formação dos profissionais; e o Estado, por sua vez, tem buscado implementar o acesso gratuito no Sistema Único de Saúde a partir de demandas municipais e estaduais.
A Cannabis sativa é, de fato, um caso muito curioso e, arrisco dizer, único, que ficará na história da farmacologia de produtos naturais: uma espécie vegetal que sofreu e ainda sofre preconceitos, estigmatizações e desinformação, no centro das atenções de muita gente diferente, de distintas visões ideológicas, formações, experiências e participações em segmentos do mercado.
O ano de 2026, que traz consigo um novo marco regulatório para práticas e pesquisas com cânabis, nos provoca e faz concluir o quanto é necessário termos farmacêuticos na linha de frente, do cultivo ao frasco, do frasco ao paciente e do paciente à farmacovigilância, da farmacovigilância às políticas públicas.










