Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Goiás (UFG) acaba de dar um passo importante rumo à prática clínica. Após concluir a etapa pré-clínica, o método que utiliza a cera de ouvido para identificar alterações metabólicas relacionadas ao câncer inicia agora os ensaios clínicos, fase que avalia a segurança e a eficácia da tecnologia em pacientes antes de uma possível aprovação para uso em hospitais e laboratórios.
O estudo é liderado pelo pesquisador Nelson Antoniosi e parte da análise de compostos presentes na cera de ouvido. Segundo os pesquisadores, alterações no metabolismo celular podem modificar a composição dessa secreção muito antes do aparecimento dos primeiros sinais clínicos da doença. A expectativa é que o exame consiga apontar a existência de um processo tumoral em uma fase extremamente precoce, quando as chances de tratamento e cura são significativamente maiores.
De acordo com Antoniosi, o método é capaz de detectar alterações que antecedem os estágios tradicionalmente utilizados para classificar o câncer. A pesquisa se baseia no comportamento das mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia nas células. Quando elas passam a funcionar de forma anormal, liberam substâncias inflamatórias que acabam alterando a composição da cera de ouvido. Essas mudanças podem ser identificadas por técnicas laboratoriais antes mesmo da formação de um tumor detectável pelos exames convencionais.
Os pesquisadores destacam que o teste não substitui os exames responsáveis por localizar o câncer no organismo, mas pode funcionar como uma ferramenta de rastreamento. Caso o resultado indique alterações compatíveis com a doença, o paciente deverá realizar exames complementares para identificar o local afetado e definir o tratamento mais adequado. O diagnóstico precoce pode reduzir a necessidade de terapias mais agressivas, como sessões prolongadas de quimioterapia, além de aumentar as chances de sucesso no tratamento.
A história da pesquisa começou de forma inusitada. Incomodado com métodos diagnósticos invasivos utilizados no passado, Nelson Antoniosi decidiu buscar alternativas menos desconfortáveis para os pacientes. A ideia de estudar a cera de ouvido surgiu ainda durante sua trajetória acadêmica na química e ganhou força anos depois, quando avanços tecnológicos permitiram analisar sua composição com maior precisão. Inicialmente voltado para o diagnóstico do diabetes, o estudo apresentou resultados promissores e abriu caminho para investigações em outras doenças metabólicas, incluindo o câncer.
Agora, com o início dos ensaios clínicos, a tecnologia entra em sua fase mais importante antes de uma possível aprovação pelos órgãos reguladores. Se os resultados confirmarem a eficácia observada nas etapas anteriores, o exame poderá representar um avanço expressivo para o diagnóstico precoce do câncer, ampliando as possibilidades de tratamento, reduzindo custos para o sistema de saúde e fortalecendo o protagonismo da ciência brasileira no desenvolvimento de soluções inovadoras para a medicina.










