A aprovação recente do teplizumabe pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) inaugura um novo momento no enfrentamento do diabetes tipo 1 no Brasil.
Indicado para adultos e crianças a partir de 8 anos com diabetes tipo 1 em estágio 2, o medicamento é o primeiro com potencial de retardar a progressão para a fase clínica da doença, quando surgem os sintomas e a necessidade de uso de insulina.
A endocrinologista Dra. Tassiane Alvarenga, associada à Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP), explica que o diabetes tipo 1 não começa de forma súbita quando a glicose sobe. “Hoje sabemos que existe um processo silencioso anterior ao diagnóstico clínico. É uma doença autoimune em que o sistema imunológico passa a atacar o pâncreas ao longo do tempo”, diz.
Esse entendimento mais recente permitiu dividir a doença em fases. No estágio 1, a pessoa já apresenta autoanticorpos contra o pâncreas, mas ainda tem glicemia normal e nenhum sintoma.
No estágio 2, além dos autoanticorpos, começam a surgir alterações glicêmicas, embora o paciente siga sem manifestações clínicas.
Já no estágio 3, aparecem os sinais clássicos do diabetes tipo 1, como sede excessiva, aumento do volume urinário, perda de peso e, em casos mais graves, quadros de urgência como a cetoacidose.
A indicação aprovada do teplizumabe é justamente para o estágio 2, fase em que ainda não há diabetes clínico estabelecido.
Indicações
A médica destaca que o teplizumabe não é indicado para todos os pacientes com diabetes tipo 1. Pessoas que já receberam o diagnóstico clínico, já apresentam hiperglicemia significativa ou já fazem uso de insulina não se enquadram no perfil previsto para esse tratamento.
“Essa medicação é voltada para a fase pré-clínica do diabetes tipo 1, quando já existem os autoanticorpos e a alteração glicêmica característica do estágio 2, mas ainda não houve a instalação completa da doença clínica”, explica.
Como é a ação do teplizumabe?
O teplizumabe é um anticorpo monoclonal imunomodulador. Em vez de agir apenas substituindo a insulina, que o organismo deixou de produzir, ele atua sobre a base do problema: a resposta autoimune que destrói as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina.
“É como se o sistema imunológico estivesse acelerando contra o pâncreas: o teplizumabe funciona como um freio nesse processo, desacelerando esse ataque”, compara Dra. Tassiane.
Na prática, isso representa uma mudança importante na abordagem do diabetes tipo 1. Durante décadas, o tratamento começou somente depois de instalado o dano pancreático. Agora, a Medicina passa a ter a possibilidade de agir antes do aparecimento dos sintomas, interferindo diretamente na fisiopatologia da doença.
“É uma inovação que muda a lógica do cuidado. Em vez de tratar apenas a consequência do processo autoimune, começamos a atuar antes que o dano esteja completamente instalado”, afirma.
Apesar da aprovação regulatória, a especialista ressalta que isso não significa disponibilidade imediata no Brasil. Ainda são necessárias etapas como definição de preço, distribuição e eventual incorporação aos sistemas de saúde. “A aprovação é um passo muito importante, mas ainda existem etapas até que a medicação esteja efetivamente acessível à população”, pontua.
Outro ponto essencial, segundo Dra. Tassiane, é alinhar expectativas. O medicamento não cura o diabetes tipo 1 nem elimina a necessidade de insulina em quem já tem a doença estabelecida.
Seu papel é retardar a progressão para o estágio clínico em pacientes selecionados. Por isso, a novidade pode ser especialmente relevante em famílias com vários casos de diabetes tipo 1 ou em contextos em que o rastreamento de autoanticorpos permita identificar precocemente pessoas em risco.










