Um dos grandes entraves para diagnosticar o Alzheimer é a dificuldade de acesso a exames que confirmam o quadro.
O PET Scan, por exemplo, é um exame de imagem avançado que consegue identificar as placas de beta-amiloide (marcadores da doença) no cérebro, mas o custo pode chegar a R$ 10 mil.
Outra opção, com preço entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, é a punção lombar, que coleta o líquor cefalorraquidiano e mede as proteínas beta-amiloide e tau, associadas à doença. Apesar do menor custo, trata-se de um procedimento invasivo.
Há ainda o fato de que tais exames não estão disponíveis na maioria das cidades brasileiras. Isso ocorre porque o PET Scan exige um equipamento de alto custo e de tecnologia complexa.
Já a punção lombar necessita de uma equipe médica especializada. Essas dificuldades ajudam a explicar o cenário de subdiagnóstico da doença no País: 8 em cada 10 brasileiros com demência não sabem que têm o problema.
O Alzheimer, um transtorno neurodegenerativo que afeta a memória recente, a linguagem e a orientação espacial e temporal, é o tipo mais comum de demência, responsável por 50% a 70% dos casos.
Por ser uma doença progressiva, quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maiores as chances de desacelerar o avanço dos sintomas. Nesse cenário, um método mais acessível e menos invasivo para diagnosticar a doença é, há tempos, alvo de pesquisas. E os exames de sangue parecem ser promissores para ocupar esse lugar.
“Definitivamente, o futuro da investigação do Alzheimer é através de exames de sangue”, afirma Daniel Yankelevich, neurologista do comportamento do Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Você consegue fazê-lo em praticamente qualquer canto do País.”
Hospital em Porto Alegre é pioneiro
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou neste ano os primeiros exames do tipo, chamados de p-tau217 plasmático. Em agosto, foi aprovada a primeira plataforma para realização do exame, o Lumipulse G pTau, da farmacêutica Fujirebio. Em setembro, o Elecsys pTau217, da Roche Diagnóstica.
No dia 15, o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS), foi a primeira instituição brasileira a oferecer o exame p-tau217 plasmático. O teste custa R$ 3,2 mil e ainda não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). A
té então, os exames de sangue para diagnóstico da doença no País exigiam o envio das amostras aos Estados Unidos para análise. Agora, todo o processo pode ocorrer no Brasil. A expectativa é que hospitais de outras regiões também ofereçam o novo teste em breve.
Entre os hospitais de São Paulo procurados pelo Pulsa,o Einstein Hospital Israelita diz prever a disponibilidade do exame para novembro. O Hospital Sírio-Libanês informa que a perspectiva de importação da nova tecnologia é a partir de 2027. A BP diz que pretende trazer o exame ainda neste ano, mas não há data definida. Já o Hospital Alemão Oswaldo Cruz tem em seu planejamento a incorporação dos exames assim que estiverem reunidas as condições necessárias à disponibilização, ainda sem prazo definido.
Como funciona
As proteínas beta-amiloide e tau são os principais biomarcadores do Alzheimer. Elas ficam majoritariamente no cérebro, formando as placas amiloides.
Fragmentos dessas placas, como a fosfotau 217 (p-tau217), “escapam” para o sangue, explica Eduardo Zimmer, chefe de Pesquisa da Unidade de Neurociência do Moinhos de Vento e responsável pela implementação do exame no hospital.
Os exames de sangue aprovados medem a concentração desses fragmentos no plasma sanguíneo, cujos níveis podem aumentar muitos anos antes do aparecimento dos primeiros sintomas.
“A fosfotau 217, apesar de ser (derivada da proteína) tau, é um bom marcador para as placas betaamiloide”, diz o pesquisador. Ela é considerada um indicativo mais preciso em relação a outras variantes da proteína tau presentes no sangue porque oferece uma leitura mais nítida das alterações cerebrais da doença.
A forma mais recomendada de analisar o resultado do exame é usar dois pontos de corte, isto é, criar três faixas de resultado para maior precisão do diagnóstico.
Dessa forma, em mais de 80% das vezes, o ptau217 plasmático identifica como positivo ou negativo para Alzheimer. Há, porém, quase 20% dos casos em que o resultado aparece numa faixa inconclusiva.
Nessas situações, a conduta é esperar alguns meses para refazer o exame ou recorrer a alguma das outras opções disponíveis hoje, o PET Scan ou o exame de líquor.
Indicação
O exame de sangue é uma ferramenta de apoio ao diagnóstico de Alzheimer e deve ser analisado em conjunto com a avaliação de estado mental, histórico do paciente e testes complementares.
Ao identificar alterações de amiloide e tau no cérebro em pessoas que já apresentam queixas ou sintomas cognitivos, é possível confirmar ou descartar se o Alzheimer é a causa desse declínio.
Por isso, o teste só deve ser feito em pessoas com sintomas da doença – especialmente problemas de memória progressivos, e não pontuais. “Para mim, a grande utilidade (do exame) vai ser para o paciente com comprometimento cognitivo leve, para fazer um diagnóstico precoce”, avalia Zimmer.
O comprometimento cognitivo leve é quando a pessoa já tem um desempenho ruim em testes cognitivos, mas isso ainda não atrapalha atividades de vida diária.
Com o tempo, o quadro pode evoluir para demência leve, em que as dificuldades de memória e raciocínio interferem nas atividades diárias. Depois, há avanço para níveis mais graves da doença.
O especialista reforça que não se trata de um exame de triagem, isto é, não pode ser conduzido em pessoas sem sintomas para identificar as chances de ter Alzheimer no futuro.
Isso porque o teste não foi estudado para essa finalidade e a presença dos biomarcadores antes dos sintomas não é garantia de que a pessoa irá desenvolver o Alzheimer.
Além disso, não existem terapias preventivas possíveis para a doença. Dessa forma, fazer o exame em pessoas assintomáticas pode levar a uma ansiedade desnecessária, o que já tem acontecido nos EUA.
“A literatura vem estudando, mas a gente não sabe ainda o que significa (a presença da fosfotau no sangue) em quem não tem sintomas. E, de qualquer maneira, se a gente identificar que ele é um marcador da presença da patologia antes dos sintomas, ainda não tem nenhuma terapia aprovada pra uso antes dos sintomas”, enfatiza Zimmer.
Uma pessoa pode ter alta carga de patologia amiloide, mas não desenvolver nenhuma perda cognitiva, se o cérebro dela for “resistente”. Isso porque a doença de Alzheimer – assim como os demais tipos de demência – depende de uma série de fatores ambientais e de estilo de vida, para além da genética.









