A caneta emagrecedora se tornou um dos temas mais discutidos no varejo farmacêutico e na medicina em geral, mas uma pergunta ainda recebe menos atenção do que merece: o que ocorre com o organismo quando o uso dessas medicações é interrompido?
A resposta é clinicamente relevante, especialmente para farmacêuticos e balconistas que lidam diariamente com pacientes em tratamento com agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida e a liraglutida.
Compreender os efeitos da descontinuação não apenas orienta o aconselhamento farmacêutico, como também contribui para o uso mais seguro e racional dessas medicações¹.
O que é a caneta emagrecedora
Canetas emagrecedoras são medicamentos injetáveis que pertencem à classe dos agonistas do receptor GLP-1, substâncias que imitam o hormônio GLP-1, produzido naturalmente pelo intestino após as refeições2.
Esse hormônio avisa o pâncreas para liberar insulina, reduz a produção de glucagon (hormônio que eleva a glicose), retarda o esvaziamento do estômago e age em áreas do cérebro que controlam o apetite2. Entre os mais usados no Brasil então:
- Semaglutida: presente no Ozempic (indicado para diabetes tipo 2) e no Wegovy (indicado para obesidade). Age exclusivamente nos receptores de GLP-1. Segundo o estudo STEP 1, publicado no The New England Journal of Medicine, a semaglutida na dose de 2,4 mg promoveu redução média de cerca de 15% do peso corporal em 68 semanas2.
- Tirzepatida: presente no Mounjaro. Age em dois receptores — GLP-1 e GIP — o que a torna um agonista duplo. A princípio, essa ação combinada resulta em maior perda de peso, promovendo perda média de 15% em 52 semanas2.
- Liraglutida: presente no Saxenda (obesidade) e no Victoza (diabetes). É a molécula mais antiga da classe, com eficácia menor que as anteriores — média de 8% de redução de peso em um ano2.
Crescimento acelerado desse mercado fica evidente nos dados: entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026, o uso dessas substâncias no Brasil saltou de 3% para 11% da população, segundo a pesquisa Consumer Pulse 2026, da Bain & Company³.
O que muda no organismo após a interrupção
Estudos clínicos publicados em periódicos de referência indicam que a interrupção do uso de agonistas GLP-1 tende a reverter, ao longo do tempo, parte significativa dos efeitos obtidos durante o tratamento.
O principal fenômeno observado é o reganho de peso. Pesquisa publicada no periódico Diabetes, Obesity and Metabolism, em 2022, acompanhou pacientes que interromperam o uso de semaglutida após 68 semanas de tratamento e identificou que, um ano após a descontinuação, os participantes haviam recuperado, em média, dois terços do peso perdido durante a fase ativa⁴.
Além do reganho de peso, os pesquisadores observaram a reversão de benefícios cardiometabólicos obtidos com o tratamento, como a melhora nos níveis de pressão arterial, glicemia de jejum e perfil lipídico⁴. Esses achados indicam que os efeitos dos GLP-1 dependem da manutenção do tratamento e não se sustentam de forma permanente após sua retirada.
Do ponto de vista fisiológico, a explicação está no mecanismo de ação dessas drogas: ao interromper a medicação, os sinais de saciedade mediados pelo GLP-1 deixam de ser amplificados artificialmente, e o organismo tende a retornar ao padrão de regulação do apetite anterior ao tratamento⁵.
Em pessoas com obesidade, esse padrão frequentemente envolve maior fome e menor resposta de saciedade em comparação com indivíduos de peso normal, o que explica a rapidez do reganho⁵.
Caneta emagrecedora e efeitos da retirada abrupta
Ao contrário de outras classes medicamentosas, os agonistas GLP-1 não produzem síndrome de abstinência no sentido clássico do termo. Não há relatos consolidados de efeitos físicos agudos e graves decorrentes da interrupção abrupta⁶.
No entanto, pacientes que interrompem o tratamento de forma não planejada frequentemente relatam o retorno intensificado da fome, o que pode levar a episódios de hiperfagia (ingestão alimentar excessiva) nas semanas seguintes⁷.
Esse fenômeno tem implicação direta para a orientação farmacêutica. O balconista ou farmacêutico que identifica um paciente pretendendo suspender o tratamento por conta própria, seja por custo, por efeitos colaterais ou por crença de que os resultados já estão consolidados, tem papel relevante ao recomendar que a decisão seja tomada em conjunto com o médico responsável pelo acompanhamento.
O risco do uso sem acompanhamento médico
A pesquisa da Bain & Company revelou um dado preocupante: entre usuários de baixa renda no Brasil, 33% afirmam fazer uso da caneta emagrecedora sem qualquer acompanhamento médico³. Essa parcela da população está mais exposta não apenas aos efeitos adversos durante o uso, como náuseas, vômitos e episódios de hipoglicemia em diabéticos, mas também a uma interrupção desorientada do tratamento, sem estratégia de manutenção do peso alcançado.
Nesse contexto, a farmácia se posiciona como ponto estratégico de contato. A Resolução nº 585/2013 do Conselho Federal de Farmácia (CFF) estabelece as atribuições clínicas do farmacêutico, que incluem a educação em saúde e o acompanhamento farmacoterapêutico⁸.
Orientar sobre a importância da continuidade do tratamento e sobre os riscos da interrupção sem supervisão é uma das formas de concretizar essa atuação clínica no dia a dia do balcão.
O que dizem as evidências sobre alternativas à descontinuação
Diante do cenário de reganho de peso após a interrupção do tratamento, pesquisadores têm investigado estratégias para atenuar esse efeito. Entre as abordagens em estudo está a redução progressiva da dose antes da suspensão definitiva do medicamento, embora a literatura científica ainda não tenha consolidado um protocolo padronizado para essa finalidade⁹.
Outra linha de pesquisa avalia a associação dos GLP-1 com mudanças sustentadas de comportamento alimentar e atividade física, que poderiam atenuar o reganho após a descontinuação¹⁰.
No Brasil, o cenário tende a se modificar nos próximos anos com a chegada de versões genéricas da semaglutida. Com preços mais acessíveis, espera-se que mais pacientes consigam manter o tratamento por períodos mais longos, reduzindo a descontinuação motivada por custo.
O papel da farmácia nesse cenário
Para farmácias e drogarias, o crescimento do uso de canetas emagrecedoras representa uma oportunidade de ampliar o escopo do atendimento. Além da dispensação, o profissional pode oferecer orientações sobre adesão, identificar sinais de uso inadequado e encaminhar casos que demandem avaliação médica. A estruturação de serviços farmacêuticos voltados ao acompanhamento de pacientes em uso de GLP-1, com registros e seguimento periódico, pode diferenciar o estabelecimento e fidelizar esse público crescente.
O reganho de peso após a interrupção da caneta emagrecedora é uma realidade clínica documentada, não um efeito secundário raro. Reconhecer esse dado e traduzi-lo em orientação qualificada para o paciente é, cada vez mais, parte do papel que o varejo farmacêutico desempenha na jornada de cuidado à saúde no Brasil.
Referências
- Atribuições clínicas do farmacêutico: papel na orientação sobre medicamentos para obesidade. Conselho Federal de Farmácia (CFF). Disponível em: www.cff.org.br/userfiles/file/noticias/Apresenta%C3%A7%C3%A3o%20CFM%20(5).pdf. Acesso em: 01/10/2026.
- Caneta emagrecedora não é para todo mundo; entenda quem pode usar. Disponível em: https://nav.dasa.com.br/blog/caneta-emagrecedora. Acesso em: 01/10/2026.
- Consumer Pulse 2026. Bain & Company. Disponível em: https://www.bain.com/pt-br/insights/consumer-pulse-brasil-2026/. Acesso em: 01/10/2026.
- Wilding, J.P.H. et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1111/dom.14725. Acesso em: 01/10/2026.
- Blüher, M. Obesity: global epidemiology and pathogenesis. Nature Reviews Endocrinology, 2019. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41574-019-0176-8. Acesso em: 01/10/2026.
- WILDING, J. P. H. et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. The New England Journal of Medicine, v. 384, p. 989-1002, 2021. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMoa2032183. Acesso em: 01/10/2026.
- Sumithran, P. et al. Long-term persistence of hormonal adaptations to weight loss. New England Journal of Medicine, 2011. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1105816. Acesso em: 01/10/2026.
- Resolução CFF nº 585/2013. Conselho Federal de Farmácia. Disponível em: https://www.cff.org.br/userfiles/file/resolucoes/585.pdf. Acesso em: 01/10/2026.
- Wilding JPH, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2022;24(8):1553-1564. Disponível em: https://doi.org/10.1111/dom.14725. Acesso em: 01/10/2026.
- Ryan, D.H.; Yockey, S.R. Weight loss and lifestyle intervention in obesity: evidence update. Current Obesity Reports, 2022. Disponível em: https://link.springer.com/journal/13679. Acesso em: 01/10/2026.









