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Home Doenças

Obesidade supera desnutrição entre crianças e adolescentes, diz Unicef

No Brasil, a obesidade superou a desnutrição como o tipo de má nutrição mais comum desde antes do ano 2000

André Silva Por André Silva
17 de setembro, 2025
em Doenças
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Obesidade supera desnutrição entre crianças e adolescentes, diz Unicef

Foto: Shutterstock

A obesidade superou a desnutrição como a forma mais prevalente de má nutrição em 2025, afetando 1 em cada 10 — ou 188 milhões — crianças e adolescentes em idade escolar e colocando-os em risco de doenças graves, alerta o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em um novo estudo.

O relatório “Alimentando o Lucro: Como os Ambientes Alimentares estão Falhando com as Crianças” baseia-se em dados de mais de 190 países e revela que a prevalência de desnutrição entre crianças de 5 a 19 anos caiu desde 2000, de quase 13% para 9,2%, enquanto as taxas de obesidade aumentaram de 3% para 9,4%.

A obesidade agora supera a desnutrição em todas as regiões do mundo, exceto na África Subsaariana e no Sul da Ásia.

Segundo o relatório, vários países das Ilhas do Pacífico apresentam as maiores taxas de obesidade do mundo. Esses níveis — que dobraram desde 2000 — são impulsionados principalmente pela substituição da alimentação tradicional por alimentos importados, baratos e altamente calóricos, ultraprocessados.

Enquanto isso, muitos países de alta renda continuam apresentando altos índices de obesidade. Por exemplo, 27% das crianças, adolescentes e jovens de 5 a 19 anos no Chile vivem com obesidade, 21% nos Estados Unidos e 21% nos Emirados Árabes Unidos.

“Quando falamos de má nutrição, não estamos mais falando apenas de crianças com baixo peso”, disse Catherine Russell, Diretora Executiva do UNICEF. “A obesidade é uma preocupação crescente que pode impactar a saúde e o desenvolvimento das crianças. Os alimentos ultraprocessados estão substituindo cada vez mais frutas, vegetais e proteínas, justamente quando a nutrição desempenha um papel crítico no crescimento, desenvolvimento cognitivo e saúde mental das crianças”.

Obesidade infantil no Brasil

No Brasil, a obesidade superou a desnutrição como o tipo de má nutrição mais comum desde antes do ano 2000. Naquele ano, o percentual de crianças e adolescentes brasileiros de 5 a 19 anos com obesidade era de 5%. Esse número triplicou até 2022, quando chegou a 15%.

Já o número de meninos e meninas em desnutrição aguda (baixo peso para altura) diminuiu de 4% para 3% no mesmo período.

O percentual de crianças e adolescentes com sobrepeso no país também cresceu, dobrando de 18%, em 2000, para 36% em 2022.

Embora a desnutrição — tanto a crônica (medida pela baixa estatura da criança para a idade) quanto a aguda (baixo peso em relação à altura) — continue sendo uma preocupação significativa entre crianças menores de 5 anos em muitos países de baixa e média renda, a prevalência de sobrepeso e obesidade está aumentando entre crianças em idade escolar e adolescentes. Segundo os dados mais recentes, 1 em cada 5 crianças e adolescentes de 5 a 19 anos no mundo — ou 391 milhões — está acima do peso, sendo que uma grande parte já é classificada como vivendo com obesidade.

Crianças são consideradas acima do peso quando estão significativamente acima do peso considerado ideal para sua idade, sexo e altura.

A obesidade é uma forma grave de excesso de peso e aumenta o risco de desenvolver resistência à insulina, pressão alta e doenças graves ao longo da vida, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer.

Alimentação inadequada

O relatório do UNICEF alerta que alimentos ultraprocessados e fast foods — ricos em açúcar, amido refinado, sal, gorduras não saudáveis e aditivos — estão moldando a dieta das crianças por meio de ambientes alimentares prejudiciais, e não por escolha pessoal. Esses produtos dominam comércios e escolas, enquanto o marketing digital dá à indústria de alimentos e bebidas acesso poderoso ao público jovem.

Por exemplo, em uma pesquisa global com 64 mil jovens de 13 a 24 anos de mais de 170 países, realizada no ano passado pela plataforma U-Report do UNICEF, 75% dos entrevistados disseram ter visto anúncios de refrigerantes, lanches ou fast foods na semana anterior, e 60% afirmaram que os anúncios aumentaram sua vontade de consumir esses alimentos. Mesmo em países afetados por conflitos, 68% dos jovens disseram estar expostos a esses anúncios.

Medidas positivas

Sem intervenções para prevenir o sobrepeso e a obesidade, os países podem enfrentar impactos econômicos e de saúde. Até 2035, o impacto econômico global do sobrepeso e da obesidade deve ultrapassar US$ 4 trilhões por ano.

O relatório destaca medidas positivas adotadas por governos. Por exemplo, no México — país com alta prevalência de obesidade entre crianças e adolescentes, onde bebidas açucaradas e alimentos ultraprocessados representam 40% das calorias diárias consumidas por crianças — o governo proibiu recentemente a venda e distribuição desses produtos em escolas públicas, impactando positivamente o ambiente alimentar de mais de 34 milhões de crianças.

O Brasil também é citado como exemplo. O estudo destaca a importância da progressiva restrição da compra de ultraprocessados no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), além dos esforços adotados no país para restringir a propaganda de alimentos não-saudáveis para crianças, implementar a rotulagem frontal e banir as gorduras trans em alimentos industrializados.

Para transformar os ambientes alimentares e garantir que as crianças tenham acesso a alimentos saudáveis, o UNICEF faz um apelo urgente aos governos, à sociedade civil e aos parceiros para que:

  • Implementem políticas abrangentes e obrigatórias para transformar os ambientes alimentares para crianças e adolescentes, incluindo rotulagem de alimentos, restrições à publicidade e impostos/subsídios sobre alimentos;
  • Implementem iniciativas sociais e de mudança de comportamento que empoderem famílias e comunidades a exigir ambientes alimentares mais saudáveis;
  • Proíbam a oferta ou venda de alimentos ultraprocessados e industrializados nas escolas, bem como a publicidade e o patrocínio de alimentos nesses ambientes;
  • Estabeleçam salvaguardas rigorosas para proteger os processos de políticas públicas da interferência da indústria de alimentos ultraprocessados;
  • Reforcem programas de proteção social para combater a pobreza monetária e melhorar o acesso financeiro a alimentos saudáveis para famílias vulneráveis.

“Em muitos países, estamos vendo a dupla carga da má nutrição — a existência simultânea da desnutrição e da obesidade. Isso exige intervenções e políticas específicas”, disse Russell.

“Alimentos saudáveis e acessíveis devem estar disponíveis para todas as crianças, para apoiar seu crescimento e desenvolvimento. Precisamos urgentemente de políticas que apoiem pais e cuidadores a acessarem alimentos saudáveis e nutritivos para seus filhos”.

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