A geneticista, professora titular da Universidade de São Paulo e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-tronco da USP, Mayana Zatz, lidera um estudo com centenários brasileiros em busca de genes de resistência e de proteção. Para ela, a genética pode explicar por que essas pessoas alcançam tamanha longevidade com boa saúde.
Uma das principais referências em estudos genéticos no País, Mayana quer mostrar ao mundo (e aos financiadores de pesquisas científicas) a importância de estudar os genes de pessoas muito idosas não apenas para encontrar caminhos para viver mais, mas também para descobrir terapias contra doenças graves.
Entre os focos do grupo liderado pela geneticista estão o estudo dos genes de centenários que sobreviveram à covid, mesmo antes de serem vacinados, e a análise de células musculares de idosos atletas, que pode contribuir para o desenvolvimento de tratamentos para distrofias musculares graves.
O grupo de Mayana ganhou destaque internacional em janeiro ao publicar artigo no periódico científico Genomic Psychiatry, ressaltando a importância da pesquisa com centenários de populações miscigenadas como a brasileira.
Os cientistas lembram que o Brasil aparece com frequência nos rankings de pessoas mais idosas do mundo, mesmo com a maior parte da população sem acesso à Medicina de ponta. Eles defendem que a resposta pode estar na miscigenação.
Para testar essa hipótese e aprofundar as análises, é preciso dinheiro e voluntários. Até agora, eles já conseguiram coletar amostras de DNA de 160 centenários, mas buscam mais.
Segundo dados do Censo de 2022, o Brasil tinha naquele ano 37,8 mil centenários. Idosos a partir dos 95 anos podem se voluntariar. O contato com os pesquisadores pode ser feito por meio do e-mail [email protected].
Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Mayana Zatz, concedida ao Estadão.
Por que decidiu estudar os centenários?
Tudo começou quando começamos a fazer o sequenciamento genômico para o diagnóstico de doenças genéticas, e eu me dei conta de que a gente precisava de um banco genômico da nossa população. Isso foi em 2008 e eu resolvi focar nos idosos.
Por que idosos? Porque quando você estuda uma pessoa jovem não sabe se ela tem um risco aumentado de vir a ter Alzheimer, Parkinson ou doenças de início tardio. E dos idosos você já tem esses dados. Então nós começamos o projeto e ele chamava 80+.
Depois, nós colaboramos com a professora Yeda Duarte, que tinha uma coorte de pessoas com mais de 60 anos que estavam sendo seguidas desde o ano 2000. E aí nós publicamos o genoma dessas pessoas. Foi em 2022. Encontramos 2 milhões de variantes. E é, até hoje, o maior banco genômico de idosos da América Latina. Durante a (pandemia de) covid-19, ficamos impressionados de ver centenários expostos (ao coronavírus) que se curaram ou então tiveram uma forma muito leve da doença, e começamos a nos interessar em estudar esses centenários.
Nós já coletamos (o DNA de) mais de 160 centenários, sendo 20 supercentenários (idosos com 110 anos ou mais). Contando as pessoas com mais de 95 anos, já são mais de 200. E a coleta continua. Até abril do ano passado, as três pessoas mais idosas do mundo eram brasileiras. Então, temos muitos superidosos no Brasil. E o que é mais interessante nisso: primeiro, eles são altamente miscigenados. E, segundo, muitos deles vivem em regiões longínquas, sem acesso à Medicina de ponta.
Então não foram pessoas que tiveram acesso às técnicas mais avançadas de prevenção e tratamento de doenças, certo?
Ao contrário. Eles têm os genes de resistência e de resiliência. E é isso que a gente quer identificar.
Já temos alguma pista sobre quais são essas características genéticas que fazem com que eles sejam tão resilientes?
Não, por exemplo, na covid-19 a gente achou uma mutação chamada MUC22, que era duas vezes mais frequente nos centenários resistentes do que na população em geral. Nós temos uma colaboração muito importante na parte de imunologia com a professora Ana Caetano, da UFMG ( Universidade Federal de Minas Gerais)
Então ela vai ver toda parte imunológica dessas pessoas. E a gente está derivando linhagens celulares dessas pessoas. Então a Laura (de Oliveira), por exemplo, que é uma centenária campeã de natação, a gente vai derivar as células musculares dela. A gente quer ver como é que são os músculos. Isso a gente faz a partir do sangue. A gente reprograma as células do sangue para virar qualquer coisa. Então, nela, a gente está interessado no músculo.
Outras pessoas que têm uma capacidade cognitiva incrível, a gente vai fazer neurônios, minicérebros. Porque você sabe que uma das características do envelhecimento é perder massa muscular ou capacidade cognitiva. Então, isso vai nos permitir aprofundar muito mais nesses aspectos, que a gente chama de estudos funcionais.
A senhora deu o exemplo desse gene MUC22, que era mais frequente na população centenária que conseguiu passar pela covid-19 sem grandes danos, mas, para além desse, cientistas já identificaram genes associados a uma maior longevidade?
Existem algumas hipóteses, mas a gente não confirmou nenhuma até agora. Em uma pesquisa recente de uma espanhola que morreu com 117 anos, eles acharam alguns genes em dose dupla nela, o que a gente chama de homozigose, mas nós não achamos nos nossos (centenários).
E, no grupo de vocês, já acharam alguma característica genética comum a esses centenários que chamou a atenção? Ou vocês precisam fazer a análise completa do genoma deles ainda?
Acho que essas análises vão sair quando tivermos o sequenciamento completo. Mas uma característica que a gente observa nas mulheres centenárias é que são todas baixinhas, 1,50 metro, por aí.
Mas há alguma hipótese que poderia explicar isso ou pode ser apenas uma coincidência?
Tem hipótese. A hipótese é que um corpo menor teria uma circulação mais eficiente, menos necessidade energética e menos divisões celulares. E, por exemplo, a gente observa que cães pequenos vivem mais do que os grandes.
Sobre a hipótese defendida por vocês num artigo recente de que a miscigenação poderia estar associada a maior longevidade, ela ainda precisa ser confirmada, mas o que faria da miscigenação um ativo favorável à longevidade?
Então, a gente acha que são vários genes (que contribuem para maior longevidade), não é um só. E a hipótese é que, se você tem uma mistura de diferentes etnias, você pode ter a sorte de ter os melhores genes de cada etnia.
E quais são os próximos passos dessa pesquisa? Há alguma previsão de quando teremos a análise completa do genoma desses 160 centenários?
Nós já sequenciamos todos, mas queremos aumentar a amostra. Quanto maior a amostra, maior a chance de a gente ter boas informações.
Um envelhecimento saudável está mais relacionado com os hábitos de vida ou com a genética?
Até uma certa idade, a gente sabe que o ambiente tem um papel muito importante. Então, aquelas receitas de se alimentar bem, de não ter sobrepeso, de fazer bastante exercício, isso vale para todo o mundo.
Mas o que a gente vê é que, depois dos 90 e dos 100 anos, a genética é muito mais importante. Tanto é que a gente vê esses centenários que não se exercitam, que comem de tudo, alguns até fumam. Então são os genes mesmo que estão protegendo. E qual é a ideia? Você, identificando os genes, pode descobrir qual é o produto desses genes, como eles funcionam, e conseguir drogas que mimetizem o funcionamento dos genes. Isso é para o futuro, não é imediato, mas essa é a ideia.










