Náusea, azia, constipação e outras alterações gastrointestinais já são efeitos colaterais conhecidos dos análogos de GLP-1, as canetas emagrecedoras, como o Mounjaro e o Ozempic. Mas o que muitas pessoas descobrem apenas com o uso é que esses medicamentos também podem ter impactos na saúde oral.
“Efeitos como boca seca, náuseas, vômitos e alterações no paladar causados por esses medicamentos interferem indiretamente na saúde oral, favorecendo problemas como erosão dental, halitose e maior risco de cáries”, explica a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia.
De acordo com a endocrinologista Dra. Deborah Beranger, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, medicações que diminuem o centro da fome interferem na produção de saliva.
“Elas atuam sobre as glândulas salivares. E sabemos que a saliva ajuda na digestão, lubrifica a mucosa, contribui com a limpeza da cavidade oral e protege contra infecções. Como a saliva fica reduzida, então essas funções ficam comprometidas e podem afetar a saúde bucal”, explica a endocrinologista.
Impactos das canetas emagrecedoras na saúde bucal
O Prof. Dr. Ricardo Amore, mestre e doutor em Dentística pela UNESP-SJC e pesquisador e palestrante da Curaprox Academy, também explica que a redução do fluxo salivar, além de diminuir sensivelmente a hidratação e lubrificação dos tecidos moles e dentes, é acompanhada por alterações como aumento do atrito aos tecidos moles, desconforto oral generalizado, lesões traumáticas, mucosite, queilite angular e síndrome da ardência bucal.
“Esses pacientes também têm uma taxa maior de cáries, que podem aparecer na superfície, perto da raiz do dente”, diz o especialista. “E como a saliva tem entre suas principais funções a capacidade de tamponar os ácidos presentes na boca, ajudando no controle da atividade de cárie e da biocorrosão, a diminuição do fluxo salivar deixa os tecidos minerais do dente, como esmalte e dentina, mais expostos à perda mineral. Além disso, o processo de remineralização também é comprometido, prejudicando o equilíbrio dinâmico entre desmineralização e remineralização, que é modulado pela saliva e pela higiene oral”, acrescenta.
Mas esse impacto não é exclusivo de medicamentos para obesidade: “Até mesmo as cirurgias bariátricas podem comprometer a saúde oral, visto que acabam por alterar a composição salivar e também o fluxo, além de facilitarem a ocorrência de refluxo gastroesofágico, dependendo da técnica cirúrgica”, diz o Dr. Ricardo.
A Dra. Marcella Garcez ainda afirma que emagrecimentos rápidos por dietas restritivas ou cetogênicas também mostram efeitos semelhantes.
Segundo ela, a redução da ingestão alimentar e alteração do esvaziamento gástrico provocados pelo medicamento também contribuem para o menor estímulo da produção de saliva.
“Além disso, náuseas, vômitos e até desidratação contribuem para esse quadro”, comenta a médica nutróloga.
Outro problema comum é a halitose que, nesses pacientes, é resultado de um desequilíbrio microbiológico e químico causado pela hipossalivação, mesmo na ausência de saburra lingual visível, segundo o Dr. Ricardo Amore.
“Além disso, o mau hálito pode vir do jejum prolongado, da boca seca e das dietas pobres em carboidratos, que produzem corpos cetônicos eliminados pelo hálito”, diz o especialista.
Cuidados essenciais
Para evitar esses efeitos causados pelas canetas emagrecedoras, é essencial manter hidratação adequada e consumir frutas, vegetais e alimentos fibrosos que estimulam a salivação.
“Recomenda-se a ingestão de 2 a 2,5 litros de água por dia, ajustando ao peso e rotina. Também é importante apostar em frutas ricas em água, além de vegetais frescos e sopas leves. Esses alimentos ajudam a hidratar e estimular a produção de saliva”, comenta a Dra. Marcella.
A Dra. Deborah Beranger lista pepino, morango, melancia, alface, melão, pêssego, cenoura, abóbora e uva entre os alimentos que ajudam na hidratação.
“A alimentação adequada também contribui contra náuseas e vômitos. Para evitar o vômito, a ingestão de alimentos ácidos ajuda, assim como não ficar muitas horas sem comer, consumindo pequenas porções em intervalos curtos”, sugere a Dra. Deborah.
Também é fundamental reforçar o cuidado com a higiene oral, que deve ser realizada com escovas ultramacias pela menor ação mecânica sobre o esmalte amolecidos, segundo o Dr. Ricardo Amore.
Para os espaços entre os dentes, as escovas interdentais são mais indicadas em relação ao fio dental por preencherem completamente os espaços interdentais e por serem atraumáticas.
Outro cuidado é com relação à escolha correta do creme dental. “Deve-se dar preferência por dentifrícios sem Lauril Sulfato de Sódio (SLS) que é um detergente surfactante adicionado à maioria dos cremes dentais comuns e que frequentemente está associado à ocorrência de aftas, descamação da gengiva, e irritação da mucosa oral, além de ser o ingrediente responsável pela quantidade excessiva de espuma nos cremes dentais. Os cremes dentais sem esse sal estimulam a função protetora da saliva e, portanto, são bem indicados”, comenta o especialista.
Outro ponto importante na hora de cuidar da saúde oral é higienizar a língua. “Além das escovas dentais e dos raspadores de língua, a ação mecânica sobre a superfície da língua também pode ser realizada por escovas especiais de perfil baixo com cerdas curtas e firmes projetadas para alcançar as ranhuras da superfície da língua de maneira eficaz, removendo a saburra lingual e resíduos acumulados.”, diz o Dr. Ricardo.
Ele ainda explica que, diante de náuseas e vômitos frequentes, o paciente deve ser orientado a aguardar o equilíbrio do quadro para realizar a higienização.
“O suco gástrico representa o agente ácido mais agressivo para os dentes e para a cavidade oral como um todo. Diante da frequente exposição, os dentes se tornam mais vulneráveis à biocorrosão ácida. Por isso, os pacientes devem aguardar em torno de meia hora para a higienização dos dentes, até que o pH da boca seja reequilibrado em torno de 5,5. Enxaguatórios orais podem auxiliar nas fases agudas”, detalha.
O mercado odontológico também conta com pastilhas mastigáveis conhecidas como Black is White, um recurso extra que pode auxiliar os pacientes com boca seca quando estiverem, por exemplo na rua, em deslocamento ou outra situação que dificulte a higienização dos dentes.
Todas essas combinações de métodos e recursos para a higiene oral contribuem diretamente para a saúde oral, bem como para a saúde geral do paciente, além de prevenir e tratar os efeitos colaterais desses medicamentos na cavidade oral. “Visitas frequentes ao médico e ao cirurgião-dentista também são importantes”, finaliza o Dr. Ricardo Amore.
Fontes: Curaprox; Professor Mestre, Doutor em Dentística e pesquisador e palestrante do Curaprox Academy, Dr. Ricardo Amore; médica nutróloga Dra. Marcella Garcez; e endocrinologista Dra. Deborah Beranger.










