Uma nova realidade bate à porta dos consultórios e farmácias brasileiras. O país, que por muito tempo foi conhecido como uma “nação jovem”, está envelhecendo em um ritmo acelerado.
Segundo dados do Censo Demográfico de 2022, o Brasil já conta com mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, um crescimento de 56% em pouco mais de uma década. Essa transformação demográfica, uma das mais rápidas do mundo, impõe desafios e oportunidades para todo o sistema de saúde.
Nesse cenário, surge um novo perfil de paciente: o “paciente bem-informado”. Ele não busca o médico ou o farmacêutico apenas quando está doente; ele chega com dados de seu relógio inteligente, com dúvidas sobre suplementos que pesquisou na internet e com um objetivo claro: não apenas viver mais, mas viver melhor. Esse movimento é a essência da medicina da longevidade.
O dilema do profissional de saúde no Brasil
Os profissionais de saúde, formados em um modelo majoritariamente focado no tratamento de doenças, se veem diante de um novo paradigma: a otimização da saúde de pessoas que não estão doentes e os desafios decorrentes desse cenário, conforme explico a seguir:
Longevidade: a lacuna de evidências e formação
Muitas intervenções populares de “longevidade” carecem de estudos clínicos robustos de longo prazo. O profissional de saúde fica em uma posição delicada, entre o desejo do paciente e a responsabilidade de basear suas recomendações em evidências científicas sólidas.
Além disso, a formação em geriatria é criticamente insuficiente. Dados da Demografia Médica 2025 mostram que, embora o número de geriatras tenha crescido nos últimos 15 anos, ainda são apenas 3.167 profissionais. Isso corresponde a somente 0,7% de todos os especialistas do país, um número alarmantemente baixo para a demanda existente. O déficit, segundo as recomendações da OMS, chega a dezenas de milhares de profissionais.
A realidade do sistema
Tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na saúde suplementar, o tempo de consulta é um recurso escasso. Uma conversa aprofundada sobre estilo de vida e prevenção, que a medicina da longevidade exige, dificilmente se encaixa em consultas de 15 ou 20 minutos. O sistema é estruturado para ser reativo, não proativo.
O caminho brasileiro: entre desafios e iniciativas
Apesar dos obstáculos, o Brasil não está parado. O Sistema Único de Saúde (SUS), por meio da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), já estabelece diretrizes para um envelhecimento ativo e saudável. A Atenção Primária à Saúde, com as equipes de Saúde da Família, é a porta de entrada e a grande aposta para coordenar esse cuidado.
Iniciativas como a Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa são ferramentas importantes para um acompanhamento estruturado, funcionando como um registro organizado de informações clínicas e hábitos de vida. Essa ferramenta ajuda a transformar o conceito abstrato de “envelhecer bem” em ações clínicas manejáveis.
O futuro é colaborativo e urgente
A medicina da longevidade não é uma tendência passageira, mas uma evolução natural da saúde diante de uma nova realidade demográfica. Para que ela floresça no Brasil de forma segura e acessível, o caminho é a colaboração.
Isso significa investir massivamente na formação de profissionais, desde médicos e enfermeiros até farmacêuticos e nutricionistas. Significa adaptar o sistema para valorizar e remunerar a prevenção. E, acima de tudo, significa construir uma ponte de confiança com o “paciente bem-informado”, dialogando com suas dúvidas e ajudando-o a navegar em um mar de informações com base na melhor ciência disponível.
O Brasil possui a base para essa transformação, mas a janela de oportunidade para agir está se fechando. É preciso acelerar o passo, e muito, para não ficar para trás na construção de um futuro mais saudável e funcional para a população 60+.

* Artigo escrito por Bruna Dimanas, especialista em Healthcare na Ipsos no Brasil









