Uma única aplicação de uma terapia genética baseada na técnica de edição de DNA CRISPR-Cas9 foi capaz de reduzir de forma sustentada os níveis de uma proteína ligada ao metabolismo das gorduras e de manter a queda de lipídios aterogênicos por até um ano. Os resultados foram publicados em 28 de agosto no New England Journal of Medicine.
O tratamento experimental, chamado CTX310, foi desenvolvido para modificar o gene ANGPTL3 nas células do fígado. Esse gene produz uma proteína que participa do controle do metabolismo de lipídios. Alterações naturais que reduzem a atividade do ANGPTL3 estão associadas a níveis mais baixos de colesterol e triglicerídeos e a menor risco cardiovascular ao longo da vida.
A terapia utiliza nanopartículas lipídicas para levar ao fígado os componentes necessários para a edição genética. Uma vez dentro das células, o sistema CRISPR-Cas9 é direcionado ao ANGPTL3 para provocar uma alteração que diminui a produção da proteína.
Efeito mantido por um ano
O novo trabalho apresenta dados de acompanhamento de participantes do primeiro estudo clínico. Segundo os pesquisadores, uma única aplicação do CTX310 esteve associada a reduções sustentadas do ANGPTL3 e de lipídios relacionados ao risco cardiovascular durante 12 meses. O estudo não identificou eventos tóxicos limitantes de dose relacionados ao tratamento nesse período.
A pesquisa faz parte de um estudo de fase 1a, etapa inicial dos testes clínicos, que tem como principal objetivo avaliar a segurança e obter os primeiros sinais de atividade do tratamento. Por isso, os resultados ainda não são suficientes para determinar se a terapia será eficaz para prevenir infartos e acidentes vasculares cerebrais ou se poderá substituir os medicamentos atualmente usados para controlar o colesterol.
O estudo inicial, publicado em novembro de 2025, envolveu 15 participantes com alterações importantes nos níveis de colesterol e triglicerídeos apesar do tratamento convencional. Depois de uma única infusão, os pesquisadores observaram redução da atividade do ANGPTL3, especialmente nas doses mais altas.
Tratamento ainda é experimental
Apesar dos resultados considerados promissores, especialistas destacam que a edição genética apresenta uma diferença importante em relação aos medicamentos tradicionais: a alteração produzida no DNA é planejada para ser permanente. Por isso, efeitos que possam aparecer somente depois de vários anos ainda precisam ser investigados.
Uma análise publicada pelo próprio New England Journal of Medicine chamou atenção justamente para a necessidade de cautela, já que a segurança em longo prazo da supressão do ANGPTL3 ainda não está completamente estabelecida.
Além disso, o tratamento foi estudado em um grupo pequeno de pacientes e ainda serão necessários estudos maiores e mais longos para confirmar a eficácia e a segurança da abordagem.
A perspectiva, porém, chama atenção porque uma terapia administrada uma única vez poderia, no futuro, oferecer uma alternativa para pessoas que têm dificuldade de controlar o colesterol com os tratamentos disponíveis ou que apresentam formas hereditárias de dislipidemia.
Por enquanto, o CTX310 permanece em fase de investigação clínica e não está disponível como tratamento de rotina. Os resultados representam um passo inicial no uso da edição genética para o controle de doenças cardiovasculares, mas ainda não permitem afirmar que a técnica esteja pronta para substituir as terapias convencionais.










