Os análogos de GLP-1 e GIP, como semaglutida e tirzepatida, transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 nos últimos anos. Considerados um dos maiores avanços da medicina metabólica recente, esses medicamentos têm demonstrado benefícios importantes para a saúde quando utilizados de forma adequada. Porém, à medida que seus resultados ganham visibilidade nas redes sociais e passam a ser associados a padrões estéticos cada vez mais extremos, especialistas observam o crescimento de um fenômeno que tem sido chamado de agonorexia.
Embora o termo não seja oficialmente reconhecido pelos manuais diagnósticos de psiquiatria, ele vem sendo utilizado para descrever um quadro de supressão extrema e patológica do apetite induzida pelo uso inadequado ou abusivo de agonistas de GLP-1 e GIP (agonorexia vem de agonistas).
Em alguns casos, esse comportamento pode evoluir para perda excessiva de peso, desnutrição, redução importante de massa muscular e uma relação cada vez mais disfuncional com a alimentação, além da dependência emocional.
Obsessão pela magreza
Segundo a Dra. Elaine Dias JK, endocrinologista e metabologista PhD pela USP, o maior desafio atual não é a eficácia dos medicamentos, mas a forma como eles vem sendo incorporados à cultura da busca por corpos cada vez mais magros.
“Os análogos de GLP-1 e GIP representam uma das maiores revoluções da medicina metabólica das últimas décadas. Eles oferecem benefícios muito além do emagrecimento e têm mudado a vida de pacientes com obesidade e doenças associadas. O problema surge quando essas terapias passam a ser utilizadas para atender expectativas estéticas irreais ou padrões corporais incompatíveis com a saúde”, afirma.
Segundo a especialista, a popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” tem levado pessoas sem obesidade, sem sobrepeso significativo ou sem indicação clínica formal a buscarem essas medicações apenas para perder poucos quilos ou manter uma magreza considerada ideal.
O que é agonorexia?
“Alguns pacientes passam a desenvolver comportamentos que se aproximam do que vem sendo chamado de agonorexia. Um dos principais aspectos observados é a chamada supressão hedônica da alimentação”, explica a Dra. Elaine.
Com a ação dos medicamentos sobre os mecanismos que regulam fome, saciedade e recompensa cerebral, algumas pessoas passam a demonstrar desinteresse excessivo pela comida ou até aversão ao ato de se alimentar.
O que deveria funcionar como uma ferramenta terapêutica para auxiliar no controle alimentar acaba sendo transformado em uma restrição extrema, que pode comprometer a ingestão adequada de nutrientes.
“Na prática clínica, o que observamos é uma combinação preocupante entre a potente ação dessas medicações sobre os mecanismos da fome e fatores psicológicos preexistentes. Pacientes com histórico de insatisfação corporal, rigidez cognitiva ou até transtornos alimentares latentes podem encontrar nesses medicamentos uma ferramenta para sustentar uma restrição alimentar extrema sem experimentar a fome biológica que normalmente funcionaria como mecanismo de proteção do organismo”, explica a especialista.
Dependência psicológica
Outro componente frequentemente associado ao fenômeno é a dependência psicológica da medicação. Mesmo após atingir um peso saudável ou até abaixo do recomendado, alguns indivíduos desenvolvem medo intenso de interromper o tratamento e recuperar peso, mantendo o uso da medicação não mais por indicação médica, mas pela necessidade emocional de preservar uma imagem corporal cada vez mais magra.
“O medicamento deixa de ser visto como tratamento e passa a funcionar como uma espécie de âncora emocional. Surge uma preocupação constante com qualquer possibilidade de ganho de peso, o que pode perpetuar o uso inadequado da terapia e gerar sofrimento psicológico importante”, afirma a endocrinologista.
Vale ressaltar também a preocupação com a sarcopenia oculta. Quando o emagrecimento acontece de forma muito rápida e sem acompanhamento nutricional adequado, parte significativa da perda de peso pode ocorrer às custas da massa muscular.
O resultado pode ser uma aparência de magreza acompanhada por fragilidade física, piora da composição corporal e prejuízos metabólicos.
“Muitas pessoas observam apenas a redução dos números na balança, mas esquecem que saúde não significa apenas pesar menos. A perda excessiva de músculo pode resultar em diminuição da força, pior desempenho funcional, alterações metabólicas e impacto importante na qualidade de vida. Preservar a massa muscular deve ser uma prioridade em qualquer tratamento para obesidade”, alerta Dra. Elaine.
Futuro dos análogos de GLP-1 e GIP
Apesar das preocupações relacionadas ao uso inadequado, os análogos de GLP-1 e GIP continuam sendo considerados um dos maiores avanços da medicina moderna. Uma revisão publicada no New England Journal of Medicine demonstrou que essas terapias não apenas promovem perda de peso e controle glicêmico, mas também estão associadas à redução do risco de eventos cardiovasculares e à desaceleração da progressão de doenças renais em pacientes de alto risco.
Para a Dra. Elaine, o futuro dos análogos de GLP-1 e GIP é extremamente promissor, mas a expansão do acesso deve caminhar junto com educação em saúde e uso racional.
“O objetivo dessas terapias nunca foi eliminar completamente a fome ou criar uma dependência permanente da medicação. O foco é tratar doenças crônicas, melhorar a saúde metabólica e oferecer mais qualidade de vida. Quando bem indicados, os benefícios são extraordinários. Quando utilizados sem critério, podem favorecer comportamentos que colocam a saúde em risco”, finaliza.










