O crescente interesse por medicamentos que auxiliam na perda de peso, como as canetas emagrecedoras à base de semaglutida, tem impulsionado um mercado paralelo de produtos sem registro e de origem duvidosa, especialmente aqueles provenientes do Paraguai.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem emitido alertas constantes sobre os riscos associados a esses itens irregulares, que representam uma séria ameaça à saúde pública e um desafio significativo para o varejo farmacêutico.
Confira, a seguir, o que são as canetas emagrecedoras e como usá-las sem riscos à saúde.
O que são as canetas emagrecedoras?
Esses fármacos atuam imitando os hormônios naturalmente produzidos pelo intestino após a alimentação, em especial o glucagon tipo 1 (GLP-1) e o polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP). Essas substâncias enviam sinais ao cérebro, ao estômago e ao pâncreas, informando que o alimento chegou ao corpo1.
Na prática, isso se traduz em três efeitos principais: a redução da sensação de apetite no sistema nervoso central, o aumento da saciedade por meio do retardo do esvaziamento gástrico e a melhora do controle do açúcar no sangue1.
Esse conjunto de ações explica por que muitas pessoas relatam comer menos, sentir menos fome ao longo do dia e perder peso de forma consistente. Ainda assim, os resultados não são iguais para todos. A resposta ao tratamento é individual e depende de fatores genéticos, metabólicos, comportamentais e do estilo de vida1.
A proliferação de produtos irregulares2
A busca por soluções rápidas para o emagrecimento, muitas vezes motivada por fatores estéticos e de saúde, levou à popularização das canetas emagrecedoras. Contudo, essa demanda gerou um ambiente propício para a falsificação e a comercialização de produtos sem a devida autorização sanitária.
A Anvisa, em diversas ocasiões, tem proibido a comercialização de canetas emagrecedoras sem registro no Brasil e alertado sobre a falta de equivalência entre produtos importados de forma irregular, como os do Paraguai, e os medicamentos devidamente registrados no País.
Riscos graves para a saúde
O consumo de canetas emagrecedoras sem registro sanitário pode acarretar consequências severas para a saúde. Casos de Ozempic falsificado, por exemplo, foram identificados em diversos países, incluindo o Brasil, contendo concentrações alteradas do medicamento e rótulos em espanhol3.
Há relatos de pacientes internados com hipoglicemias graves e convulsões decorrentes do uso desses produtos irregulares3.
Medicamentos falsificados são produzidos sem qualquer controle sanitário, podendo conter substâncias baratas e de fácil obtenção, como amido, farinha ou lactose, ou até mesmo compostos tóxicos e contaminados4.
Além de não tratarem a condição desejada, esses produtos podem causar reações adversas graves, alergias, lesões em órgãos como fígado e rins, descompensação de doenças crônicas e interações medicamentosas imprevisíveis4.
Canetas do Paraguai NÃO demonstraram equivalência com medicamentos registrados no Brasil6
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que É FALSA a informação de que testes laboratoriais comprovaram a equivalência de canetas contrabandeadas com os produtos registrados no Brasil.
Para garantir que um medicamento é equivalente a outro, são necessários testes específicos para assegurar concentrações e características idênticas. Além disso, os testes precisam avaliar se o medicamento funciona da mesma forma quando é aplicado em uma pessoa. Para isso, é necessário avaliar como o produto é absorvido pelo corpo, qual a concentração que atinge na corrente sanguínea e quanto tempo leva para ser eliminado.
Para se comprovar a equivalência, é necessário que o estudo seja feito em um centro de bioequivalência credenciado, que tem a responsabilidade de avaliar as etapas clínicas, analíticas e estatísticas do estudo.
O que é fato?6
O Centro de Informação e Assistência Toxicológica da Unicamp (CIATox) realizou apenas testes de presença, concentração e estrutura molecular do princípio ativo tirzepatida em medicamentos contrabandeados.
O CIATox NÃO é um centro de bioequivalência credenciado no Brasil e não realizou estudos de equivalência. O centro também não faz parte da Rede Brasileira de Laboratórios Analíticos em Saúde.
Os testes realizados pela Unicamp permitem dizer que havia presença de princípio ativo nos frascos. Entretanto, não é possível afirmar que são equivalentes, já que não foram feitas análises de impurezas, contaminantes, degradação do produto, esterilidade, presença de metais pesados, entre outros.
O mais importante: o teste NÃO avaliou a biodisponibilidade. Esse é o dado mais relevante para dizer que um medicamento funciona do mesmo jeito que outro.
Falta de eficácia no tratamento7
Muitas pessoas recorrem ao mercado irregular buscando uma solução mais barata. Mas imagine investir dinheiro, criar expectativas e, no final, descobrir que o produto não tinha qualquer efeito.
Além da frustração, isso pode atrasar o tratamento e contribuir para o agravamento de condições associadas ao excesso de peso, como:
- hipertensão;
- apneia do sono;
- dislipidemia; e
- diabetes tipo 2.
Maior chance de efeitos adversos graves7
Quando não há controle de qualidade, os riscos aumentam. Entre os possíveis efeitos adversos estão:
- náuseas intensas;
- vômitos;
- desidratação;
- dores abdominais; e
- alterações metabólicas.
Em situações mais graves, pode haver necessidade de atendimento médico de urgência.
O papel crucial das farmácias
Diante desse cenário, as farmácias e drogarias desempenham um papel fundamental na proteção da saúde dos consumidores. A orientação é que os medicamentos sejam adquiridos exclusivamente em estabelecimentos regularizados e licenciados pela Anvisa, sejam físicos ou online5.
A conscientização sobre os perigos do mercado ilegal é uma responsabilidade essencial do setor farmacêutico. Para auxiliar na identificação de produtos falsificados, a Anvisa e fabricantes fornecem algumas dicas importantes3,5.
Comprar em farmácias regularizadas: evitar a aquisição de medicamentos em sites não autorizados, redes sociais, marketplaces sem transparência ou de vendedores sem procedência
Verificar a embalagem: observar se a caixa está lacrada, possui código de barras, lote de fabricação e prazo de validade legíveis. Erros de ortografia, lacres danificados, impressão de baixa qualidade ou rótulos mal colocados são sinais de alerta.
Desconfiar de preços muito baixos: valores muito abaixo dos praticados no mercado são um forte indicativo de irregularidade.
Exigir a nota fiscal: a nota fiscal é um comprovante de compra e procedência do produto
Confirir a bula: verificar se a bula está em português.
Em caso de suspeita de falsificação, o produto não deve ser utilizado. É fundamental entrar em contato com o fabricante para verificar a autenticidade e, se comprovada a fraude, comunicar o caso à Anvisa, por meio do sistema Notivisa (para profissionais de saúde) ou da Ouvidoria, utilizando a plataforma FalaBR (para pacientes).
Referências
- “Canetas emagrecedoras”: conheça os riscos associados ao uso sem indicação – Vida Saudável (Einstein). Disponível em: www.einstein.br/n/vida-saudavel/canetas-emagrecedoras-conheca-os-riscos-associados-ao-uso-sem-indicacao. Acesso em: 03/08/2026.
- Autorizado, importado, experimental ou falsificado? Anvisa explica as diferenças entre os medicamentos – Anvisa. Disponível em: www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-proibe-canetas-emagrecedoras-sem-registro-no-brasil. Acesso em: 03/08/2026.
- Alerta: saiba identificar medicamentos falsificados para tratamento de diabetes e esclerose múltipla – CRM-PR. Disponível em: www.crmpr.org.br/Alerta-saiba-identificar-medicamentos-falsificados-para-tratamento-de-diabetes-e-escleros-11-58742.shtml. Acesso em: 03/08/2026.
- Remédios falsificados representam risco à saúde e desafiam fiscalização – Universidade Tiradentes. Disponível em: portal.unit.br/blog/noticias/remedios-falsificados-representam-risco-a-saude-e-desafiam-fiscalizacao. Acesso em: 03/08/2026.
- Falsificação de medicamentos: como identificar produtos falsos e proteger sua saúde – Anahp. Disponível em: www.anahp.com.br/saude-da-saude/falsificacao-de-medicamentos-como-identificar-produtos-falsos-e-proteger-sua-saude. Acesso em: 03/08/2026.
- Canetas do Paraguai NÃO demonstraram equivalência com medicamentos registrados no Brasil – Ministério da Saúde. Disponível em: www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/canetas-do-paraguai-nao-demonstraram-equivalencia-com-medicamentos-registrados-no-brasil. Acesso em: 03/08/2026.
- Mounjaro Paraguai: quais são os riscos de usar canetas não autorizadas? – Araújo. Disponível em: araujo.com.br/blog/mounjaro-de-pobre-o-que-e-e-quais-os-riscos. Acesso em: 03/08/2026.










