Uma nova classe de medicamentos está prestes a enfrentar uma das causas mais persistentes de infartos e derrames: a lipoproteína(a), conhecida pela sigla Lp(a). Trata-se de uma partícula gordurosa no sangue que endurece artérias, favorece a formação de coágulos e está associada a doenças cardíacas graves. O problema: décadas de pesquisa não produziram nenhum tratamento aprovado especificamente para reduzi-la.
Isso pode mudar em breve. Novartis, Amgen e Eli Lilly estão em estágios avançados de desenvolvimento de medicamentos que reduzem os níveis de Lp(a) no organismo.
O candidato mais adiantado, desenvolvido pela Novartis em parceria com a Ionis Pharmaceuticals, pode ter seus resultados clínicos divulgados ainda neste verão (no hemisfério norte) e chegar à aprovação regulatória já em 2027, segundo informações do The Wall Street Journal.
Uma ameaça silenciosa
A Lp(a) é uma variante do LDL, o chamado colesterol ruim, mas com características próprias que a tornam especialmente perigosa.
Diferentemente do LDL convencional, ela não responde a mudanças na dieta nem à prática de exercícios. Cerca de 90% do nível de Lp(a) de uma pessoa é determinado ao nascer, por herança genética.
Aproximadamente uma em cada cinco pessoas no mundo tem níveis perigosamente elevados da partícula, segundo o cardiologista Steven Nissen, da Cleveland Clinic, envolvido em vários dos ensaios clínicos em curso. Nos Estados Unidos, estima-se que dezenas de milhões de pessoas tenham Lp(a) elevada sem saber.
A maioria nunca foi testada. Médicos têm relutado em pedir o exame justamente porque não havia tratamento disponível para reduzir diretamente a partícula. No início deste ano, entidades médicas atualizaram suas diretrizes para recomendar a realização do teste de Lp(a) como parte da avaliação cardiovascular de rotina.
Um detalhe que complica ainda mais o quadro: as estatinas, medicamentos amplamente prescritos para controle do colesterol, podem elevar os níveis de Lp(a), não reduzi-los.
Como os novos medicamentos funcionam
As abordagens em desenvolvimento usam tecnologias baseadas em genes para agir diretamente na produção da partícula pelo organismo.
Os candidatos da Amgen e da Eli Lilly utilizam um mecanismo que silencia o gene responsável pela produção de Lp(a).
Já o tratamento da Novartis com a Ionis age de forma diferente: bloqueia o sinal que instrui o fígado a fabricar a partícula.
O prazo para os resultados varia conforme o estágio de cada ensaio. A Novartis pode anunciar dados ainda neste verão. A Amgen espera resultados em um ou dois anos. A Lilly, por sua vez, só deve concluir sua fase avançada em 2029.
O entusiasmo com os novos candidatos carrega uma ressalva importante. No passado, pesquisadores desenvolveram medicamentos que conseguiram reduzir os níveis de Lp(a) em alguma medida, mas não foram capazes de diminuir efetivamente os casos de infarto e derrame nos estudos clínicos. A hipótese central agora é que esses tratamentos anteriores simplesmente não reduziram a partícula o suficiente.
“Era um enigma que ninguém conseguia resolver”, disse Monica Florio, pesquisadora da Amgen envolvida no desenvolvimento do candidato da empresa. “Agora acredito que esses ensaios vão nos trazer uma resposta.”
Para que os medicamentos funcionem de forma clinicamente relevante, os cientistas acreditam que é preciso reduzir os níveis de Lp(a) de maneira significativa, não apenas moderada. A Amgen defende que a eliminação quase total da partícula é o que pode, de fato, reduzir infartos e mortes.
Potencial de mercado e acesso
Se os ensaios confirmarem eficácia, o mercado de medicamentos para Lp(a) pode ser expressivo. Analistas do Citi estimam que o segmento pode movimentar até US$ 25 bilhões por ano globalmente.
A questão do preço, porém, é um ponto de atenção. Há pouco mais de uma década, planos de saúde americanos resistiram a cobrir uma geração anterior de redutores de colesterol, os inibidores de PCSK9, cujo custo inicial era de cerca de US$ 1.000 por mês.
Fabricantes precisaram reduzir o valor para aproximadamente US$ 200 mensais para ampliar o acesso. Analistas projetam que os medicamentos para Lp(a) devem ter precificação semelhante à dos PCSK9 já aprovados, mas muito depende dos resultados que estão por vir.
Há ainda a questão de quem, exatamente, se beneficiaria do tratamento. Os medicamentos podem se mostrar claramente eficazes apenas para pessoas com níveis muito elevados de Lp(a).
Se os benefícios para pacientes com elevações menores forem inconclusivos, as coberturas de planos de saúde podem ser restritas aos casos de maior risco, limitando o alcance terapêutico.










