As pessoas adoecem, buscam ajuda e recebem tratamento. E, por muito tempo, a farmácia ocupou um papel importante na jornada da saúde, mas quase sempre na etapa final, quando já existia um problema a ser resolvido. Hoje, o avanço dos medicamentos da classe GLP-1 começa a mudar essa lógica.
Estudos da Circana mostram que, atualmente, cerca de 23% dos domicílios nos Estados Unidos possuem pelo menos um usuário de medicamentos GLP-1, proporção que continua crescendo ano após ano. E o mais interessante é que esses consumidores não estão necessariamente comprando menos. Eles estão comprando de maneira diferente e redefinindo suas prioridades de saúde, com um foco crescente em gestão de peso, bem-estar e prevenção
Os dados apontam que produtos associados à proteína, hidratação, fibras e nutrição balanceada ganham relevância nas cestas de consumo, enquanto categorias associadas a açúcar, carboidratos refinados e bebidas alcoólicas perdem espaço. Ou seja, estamos falando de consumidores que passam a fazer escolhas mais conscientes.
Talvez o aspecto mais relevante seja que parte desses comportamentos permanece mesmo após a interrupção do tratamento. Notamos que usuários que deixam de utilizar GLP-1 continuam impulsionando categorias ligadas a produtos frescos, cuidados pessoais e armazenamento doméstico, indicando que muitos dos hábitos adquiridos permanecem mesmo depois do uso da medicação.
Isso sugere que estamos diante de algo maior do que uma tendência farmacêutica. Estamos observando a aceleração de uma mudança estrutural em direção à prevenção. É justamente nesse contexto que a farmácia ganha um papel estratégico.
GLP-1 e as mudanças no varejo farma
Se historicamente esse canal esteve associado à remediação e a uma necessidade imediata de saúde, hoje vemos uma nova oportunidade, já que os consumidores de GLP-1 buscam acompanhamento contínuo, suplementação, vitaminas, produtos para hidratação, nutrição especializada e alternativas voltadas ao bem-estar e à qualidade de vida. A jornada deixa de ser episódica e passa a ser permanente.
A farmácia possui atributos únicos para liderar essa transformação. Nenhum outro canal combina capilaridade, proximidade, frequência de visita e credibilidade em saúde na mesma intensidade. Por isso, a grande oportunidade para o setor talvez não esteja apenas na dispensação dos próprios medicamentos GLP-1, mas em ocupar um papel mais amplo na vida desses consumidores.
Nesse sentido, o Brasil ainda está atrás de mercados mais maduros, mas já observamos alguns sinais de transformação. O crescimento de categorias funcionais, a expansão das opções sem álcool, a valorização crescente da proteína e o interesse cada vez maior por saúde metabólica apontam para uma mudança que tende a ganhar escala nos próximos anos. Projeções internacionais da Circana mostram que os domicílios com usuários de GLP-1 responderão por aproximadamente 35% de todas as unidades vendidas nas categorias de alimentos e bebidas nos Estados Unidos até 2030.
O erro seria enxergar o GLP-1 apenas como mais uma categoria farmacêutica de crescimento acelerado. A oportunidade está em compreender o que ele revela sobre o futuro do consumidor. Pessoas que antes procuravam o sistema de saúde principalmente para tratar problemas começam a buscar ferramentas para evitá-los.
Se essa transformação continuar avançando, o maior impacto do Ozempic, Wegovy e Mounjaro talvez não esteja apenas na perda de peso. Estará na redefinição do papel da própria farmácia: de um espaço voltado à remediação para um dos principais centros de prevenção, acompanhamento e promoção da saúde da sociedade.
* Artigo escrito pelo vice-presidente Latam da Circana, Daniel Morimoto










