Embora o debate sobre polifarmácia – a utilização de cinco ou mais medicamentos simultaneamente – normalmente esteja associado às interações (às vezes danosas) das substâncias presentes nos remédios, há uma outra questão menos conhecida, mas igualmente relevante.
Trata-se das interações entre medicamentos e exames laboratoriais, segundo Thiago de Melo Costa Pereira, professor da Universidade Vila Velha. Pesquisador com atuação nas áreas de farmacologia, bioquímica e fisiologia, o professor tem mais de 560 mil seguidores nas redes sociais no seu perfil @farmaconapratica e outros 255 mil inscritos em seu canal no YouTube, ambos voltados para a divulgação científica.
Ele alerta que exames clínicos podem estar “contaminados” pelo uso de medicamentos e, a meu pedido, deu uma lista de exemplos para facilitar a compreensão:
Domperidona
“A domperidona é muito usada para refluxo e pode aumentar o nível de prolactina em três ou quatro vezes acima do valor de referência. A alteração está associada ao que chamamos de um interferente, e não a uma doença. Se a informação não for compartilhada com o médico que pediu o exame, o profissional talvez ache necessário solicitar uma ressonância ou tomografia, por suspeitar de uma hipófise aumentada e do risco de um tumor”, detalha.
Creatina
Pereira apresenta outra situação de interação que pode resultar em exames desnecessários e custos extras. Atualmente, a creatina é utilizada como suplemento alimentar para melhorar o rendimento no exercício físico e para evitar a sarcopenia, que é perda progressiva de massa muscular.
No entanto, seu uso deve ser comunicado ao médico e ao laboratório de análises clínicas:
“A creatina não compromete a função renal, só que, como é metabolizada em creatinina, é natural que os níveis dessa substância – que é um marcador de função renal – aumentem no sangue, mas sem prejuízo para o órgão. Para acompanhar a função renal sem esse interferente, é preciso medir os níveis de ureia e cistatina C, são independentes da creatina”, ensina.
Biotina
A biotina, popular contra a queda de cabelo e unhas fracas, é mais um exemplo de suplementação bastante comum.
Entretanto, pode apontar um quadro falso de hipertireoidismo, porque provoca um TSH (hormônio tireoestimulante) falsamente baixo e um T4 (tiroxina) falsamente alto – sendo este último o principal hormônio produzido pela glândula tireoide e fundamental para regular o metabolismo. Portanto, é indispensável suspender o uso da biotina por dois a sete dias antes do exame.
Orientações gerais
A lista é grande e abrange diversas categorias de medicamentos – de anti-inflamatórios a antipsicóticos. Para evitar problemas, seguem as orientações do professor:
- Na consulta: é indispensável fazer uma relação de tudo o que está sendo consumido – não somente medicamentos, mas também suplementos, fitoterápicos e até chás.
- Nos retornos: relate se foi introduzido algum novo remédio ou tratamento.
- Uma alternativa prática: utilizar os chamados testes rápidos realizados em farmácias. Desde 2023, além da tradicional aferição da pressão arterial, muitas passaram a oferecer exames como glicemia e colesterol, entre outros. Tais testes podem ajudar as pessoas a acompanhar seu tratamento com uma frequência maior entre as consultas, facilitando a identificação precoce de alterações que merecem atenção. Pereira destaca que esses exames devem seguir os mesmos padrões de qualidade e segurança exigidos dos laboratórios clínicos.
No Brasil, pesquisas apontam que quase 20% dos idosos se enquadram na polifarmácia, devido à prevalência de enfermidades crônicas, como hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, insuficiência renal e distúrbios hormonais.
Os exames laboratoriais são essenciais para o monitoramento dessas condições e influenciam aproximadamente 70% das decisões médicas.
Quando as interferências não são reconhecidas, os impactos podem ser significativos, levando à realização de investigações complementares evitáveis, além de custos e riscos adicionais para os pacientes.









